domingo, 29 de junho de 2008

A chegada do Amelie


O sol brilhava forte, as ondas faziam aquele barulho gostoso de ouvir, a brisa salgada soprava os cabelos queimados de sol da garota. Era uma manhã perfeita para navegar.
Ash arrumou o revólver e a espada na bainha, pegou um vidrinho no bolso das largas calças escuras e deu um gole em seu conteúdo.
- Não acha que está meio cedo pra isso? – Um homem de voz cansada que esfregava o chão perguntou. Ele devia ter seus trinta anos, usava uma bandana listrada e parecia não se barbear há semanas.
- Aprendi com o melhor, Carl. – Ela sorriu para ele.
- Eu não devia ter começado a beber na frente dela. – Um segundo homem apareceu, pegou o vidrinho da garota e deu um demorado gole. Ele era maior que o primeiro, tinha uma cicatriz que ia da sobrancelha até o meio de sua bochecha, uma careca reluzente, olhos verdes-mar e um cavanhaque escuro. Seus braços eram cor-de-sol assim como todas as outras coisas no navio. Está no pacote para ser pirata.
- Olá, capitão. – Ela cumprimentou.
- Quando vai me chamar de ‘pai’?
- Gosto de ‘capitão’, me faz me sentir meio pirata.



Qualquer dia desses eu te mostro o resto.

sábado, 28 de junho de 2008


No fim do túnel tudo escuro,
Ela me procurando com o olhar,
Mas as flores não chegaram
Quando deveriam chegar

A tarde quer mais que um susto,
A noite me pega num contrapé,
Seu beijo acelerando meu pulso,
Amanhã só faço oque eu quiser

É de Frejat sobre ele.
É de mim sobre esse momento, sobre oque eu decidi e sobre esse(s) sentimento(s).

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Don't leave so fast


Cheguei lá cheia até a borda de falta de certezas. Dava pra ouvir um baixo tocando no primeiro andar, as notas escorriam pelas janelas e gotejavam no chão. Eu e minhas calças de dança velhas tocamos o interfone. O baixo parou.
-Alô?
-Oi..
-É você?
-Sou.
Deu até pra ouvir o sorriso. E deu pra ver também.
-Tá, tô descendo.
Click.
Quando a porta abriu e todos aqueles quase-cachos entraram no meu campo de visão, as certezas vieram todas de uma vez, mas foi tão rápido que eu não consegui pegar nem a poeira de uma delas.
Saí de lá assim como eu cheguei, só que com um cheiro diferente.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

We were born for this



No pote de vidro em minhas mãos um roxo escuro pastoso deslizava preguiçosamente de um lado para o outro, como um peixe gordo dentro de um aquário. Na parede à minha frente, uma frase escrita a lápis ("Agora, tragam-me o horizonte!") prestes a ser eternizada no branco. Das caixas de som do computador, a voz suave e macia de Norah Jones inundava o quarto. Fiquei lá encarando a parede, com o pote de tinta roxa na mão, durante algum tempo, sem pensar em nada, só mascando meu Bubbaloo de tuti-fruti e ouvindo à Norah. Puxei uma cadeira metálica pra junto da parede e subi, coloquei o pé direito em cima do metal frio e ao deixar o azulejo com o pé esquerdo, a cadeira estalou, a bolha de chiclete em minha boca estourou, a música acabou e eu percebi. Percebi que tinha de parar de tentar viver o momento dos outros e viver os meus próprios momentos. Percebi que antes de satisfazer os outros, eu tenho que estar satisfeita. Percebi que ninguém vai amar você se você não se amar primeiro. Percebi que tenho de dar mais vasão aos meus próprios sentimentos, que tenho de pensar mais em mim. Percebi também que devo fazer tudo isso machucando o mínimo de pessoas que eu conseguir, sem machucar ninguém se possível. Mas acho que não é assim que a banda toca, não é mesmo? Alguém sempre sai ferido, sempre. Ferido, mas vivo. A gente sobrevive e vai vivendo, é a vida, é bonita e é bonita.

Quanto a tudo isso? Acho que vou ficar por aqui mesmo, bem no meio do caminho.
"Porque aí, quando você estiver incrivelmente apaixonado por você, vai poder se apaixonar por alguém"

segunda-feira, 23 de junho de 2008

When it rains

Uma chuva pra inundar o mundo. Uma menina e um menino. Olhos tão cheios de paixão quanto você pode imaginar. A vontade explodindo dentro. You do the math.
Yeah, but than what?
Você não pode simplesmente sair por aí fazendo oque você quiser e achando que não vai afetar ninguém.
A gente está constantemente quebrando o coração de alguém?

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Liquidificador

Segui por uma ruazinha estreita tingida de laranjado por um Sol frio de fim de outono, a cabeça num turbilhão de pensamentos, num redemoinho de incógnitas incauculáveis e palavras não codificáveis.

Não me entendo e ajo como se entendesse.


terça-feira, 17 de junho de 2008

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo..


..mas se eu ainda não achei o tal amor tranquilo (ou amor nenhum), não tem problema, né? I mean, a culpa não é minha se minha Alma Gêmea ainda não deu as caras (não que eu queria que ela faça isso agora, mas aí é outra história), não tenho culpa se Sr.Amor Da Minha Adolescência resolveu bater perna por aí antes de vir bater na minha porta. Nem sei se quero um desses, acho que sou mais afim de pequenos grandes amores; seria mais conveniente se O Amor Da Minha Vida me aparecesse lá pros 30, depois d'eu já ter vivido pra caramba, me aventurado às pampas, ter me fortalecido.. Não que seria ruim namorar alguém por agora, não seria, seria incrível, mas não é de todo mal se você ainda não namorou. No matter fact (?), não é de mal nenhum! Nada de se sentir mal-amada, rejeitada, not good enough e todos esses sentimentos de mesma procedência. Você não é fraca nem incapaz. Sinceramente, não significa nada essa 'falta de namorado' na sua linha do tempo, sinta orgulho de estar solteira, mas não se feche para affairs em potencial. É bem complicado essa merda toda de amor, sempre rola um sentimento meio 'Ninguém me ama, ninguém me quer' ou 'Eu te amo, mas você não me dá bola.. Vou me afogar num copinho de coca-cola', é inevitável, mas você não deve se sentir assim o tempo todo. Até porque pessoas tristes não namoram MESMO!

Eu tenho essa pequena teoria, camaradas: Quando você está feliz, de bem com você mesma, atrai mais caras interessantes e possíveis boyfriends. Ninguém quer estar ao lado de alguém que não sorri, que está sempre triste e borocoxo. Sorriam, meus chuchus! Ame a você mesmo!

E se apaixonar é bom, sendo a tal paixão recíproca ou não. O mundo fica mais colorido e cheio de esperanças. Estar apaixonado é fundamental. Estar apaixonado é viciante. O amor é viciante.

domingo, 15 de junho de 2008

You got the afternoon


Ele a beijou nos lábios. Um beijo que não veio só da boca, veio também do coração e da alma dele. Daquele amor todo que ele sentia por ela.
- Mas e se você não for a pessoa certa?- ela perguntou num sopro.
- Você nunca vai saber se não tentar.
- Acho que a gente nunca sabe se é a pessoa certa ou não.. Promete continuar me conquistando todos os dias?
- Eu conquisto?
- Conquista. E com bastante afinco.
Ele sorriu um sorriso que continha todas as estrelas do céu daquela noite.
- Prometo.
- Então tá.


quarta-feira, 11 de junho de 2008

Pó de estrela


Encontrei com ela na última viagem de carro que fiz. Eu estava indo de algum lugar para qualquer lugar numa Dinamarca inundada de verão em meu mais novo Bentley conversível que ganhei num jogo de pôquer alguns dias antes, ouvindo Lenine o mais alto que meus tímpanos conseguiam suportar, óculos escuros com armações largas, lenço lilás no pescoço, aquela cena clássica de filme bem proposital. Saia fumaça do asfalto, a Dinamarca nunca tinha enfrentado verão mais quente (obrigada, Aquecimento Global) e eu precisava da porra de uma Coca Cola Light bem gelada. Ela estava sentada numa mala verde antiga, daquelas que seu avô tem, cheia adesivos com nomes de países, o cabelo rosa preso num coque no alto da cabeça, vestida num vestido amarelo verão total, branca feito leite (essa é a Europa que eu conheço!). Quando viu meu carro, levantou-se de supetão e fez aquele sinal de "Ei, amigo, me dá uma carona pelo amor de Deus?!", aí eu tive que parar, não podia deixar a moça lá, sentada na beira de uma auto-estrada dinamarquesa, naquele calor maravilhoso (sinta o sarcasmo). Seria desumano. De qualquer forma, parei e mandei ela entrar. Ela agredeceu com um sorriso, jogou a mala no banco traseiro e entrou sem abrir a porta. Abaixei o volume da música e perguntei seu nome e pra onde ela ia. O nome era Joanne e o destino era qualquer lugar.Que coencidência, eu disse a ela, porque é pra lá mesmo que eu estou indo. Coencidência nada, isso é destino, ela afirmou. Foi com tanta determinação e ela estava tão certa disso que eu não ousei discordar nem em pensamento. Paramos mais adiante num posto atarrachado a uma loja de conveniência e eu comprei Pringles, dois litros de Coca Light bem gelada e incontáveis barras de chocolate e Joanne comprou o último volume da revista em quadrinhos do Batman.
Viajamos o dia todo e quando a noite chegou, abafada e quente, paramos pra dormir em uma pousada bem característica de auto-estrada (fedida, desprovida de qualquer tipo de 'resfriador de ar' e todos os itens de mesma procedência e com lençóis gritando por uma boa lavada). Lembro-me de assistir TV até altas horas, comer Pringles, chocolate, fumar, beber Coca e rir até a barriga doer ao lado de Joanne. Depois só lembro de acordar no dia seguinte, procurar por Jo e todo e único resquício dela que achei foi uma bandeja com meu café da manhã nos pés da cama e um bilhete escrito com uma caligrafia apressada, quase não legível agradecendo pela carona, pela atenção e pela madrugada divertidíssima; com amor, Jo.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Entrelinhas your ass


Foi só um beijo, foi só um sorriso, só um abraço. Não estou te pedindo em casamento ocultamente ou te dizendo que eu te amo demais, só estou te abraçando. Esse meu sorriso não foi especial e por trás dele não há nenhum significado mágico e romântico, só a minha língua e todo o resto do meu aparelho bucal. Não te trato assim porque estou apaixonada e quero te beijar aqui e agora, te trato assim porque sou simpática e amigável (apesar d'eu ser aparentemente incapaz de produzir qualquer expressão que demonstre simpatia e/ou amabilidade), porque você não fez nada que mereça meu desprezo, minha arrogância e meu pouco caso. As pessoas têm que parar de inventar significados ocultos e pedidos de casamento escondidos nos sorrisos, nos abraços, no tratamento que eu dou à elas. Depois, se eu passar a te tratar daquele jeito bem Blair de ser, você vai ficar magoadinho e alugará (ui, super culta!) meu ouvido com todas essas babaquices características ("Eu fiz algo errado, Ila? Porque se eu te magoei de alguma forma, por favor me diz.." ou pára aqueles mais diretos "Que merda tá acontecendo, garota?"). Amigo, não tenho espaço interno pra isso, sério. Já é bem difícil ter que ser gentil e amável..

sábado, 7 de junho de 2008

Leiam,gente.Por favor.


"Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios’’.

Essa frase é de um adolescente de 16 anos. Um garoto que amava Radiohead, Mutantes e Vitor Ramil. Foi escrita no dia de seu suicídio. Era parte de sua carta de despedida. Ele dizia aos pais que a música era a melhor maneira de enfrentar o desespero que viria. Antes de começar a morrer, colou a carta no lado externo da porta do banheiro. Acima dela, um cartaz: “Não entre. Concentrações letais de monóxido de carbono”. Vinícius ligou o aparelho de som – “porque é bom morrer com música alegre” – e entrou.Essa frase escrita na morte se transformou num legado de vida ao ser impressa no encarte do CD que será lançado ainda em fevereiro pela Allegro Discos, com 23 músicas de sua autoria. Parte delas foi entregue aos pais na forma de uma herança às avessas: “Deixei na mesa do computador um envelope vermelho da Faber-Castell que contém um CD com algumas de minhas músicas”. Yoñlu, o título do CD, é o nome com o qual batizou a si mesmo no mundo em que circulava com mais desenvoltura: a internet.Ambos, Vinícius e Yoñlu, morreram por asfixia por volta das 15h30 de uma quarta-feira de inverno, 26 de julho de 2006. Vinícius foi estimulado ao suicídio e auxiliado por pessoas anônimas na internet. Ele é a primeira vítima conhecida no Brasil de um crime que tem arrancado a vida de jovens de diferentes cantos do mundo – uma atrocidade que poderia ser chamada de Suicídio.com.Yoñlu anunciou na internet que seu suicídio começaria a partir das 11 horas de 26 de julhoEncobertos pelo anonimato da rede, internautas de diferentes nacionalidades têm dito em várias línguas a pessoas muito frágeis, a maioria delas adolescentes: “Mate-se”. O suicídio de Simon Kelly, de 18 anos, em Cornwall, na Inglaterra, foi um dos primeiros sinais de que algo de macabro estava acontecendo no reino da internet. No verão de 2001, o garoto aproveitou uma viagem dos pais para acessar sites sobre suicídio com detalhes técnicos de como poderia se matar. Morreu de overdose enquanto conversava com “amigos” virtuais em uma sala de bate-papo. A banalidade dos diálogos travados enquanto o adolescente tirava a vida é chocante. Ninguém tentou dissuadi-lo ou buscou ajuda. Um internauta procurou apenas convencê-lo a dar uma última olhada no mar antes do fim. Simon respondeu: “Fiz isso no domingo. Vejo vocês do outro lado”. A morte foi transmitida pela câmera do computador.Somente em 2005, 91 pessoas, a maioria entre 20 e 30 anos, suicidaram-se no Japão, estimuladas por sites na internet. Apenas em um mês, março de 2006, houve três casos de suicídios coletivos combinados em fóruns virtuais no país: 13 internautas morreram. Desde o ano passado, 14 jovens da região de Bridgend, no sul do País de Gales, se mataram. Alguns deles estavam ligados por um site de relacionamento que difundia uma idéia “romântica” do suicídio. O mais velho tinha 26 anos. Nos últimos seis anos, a Papyrus, entidade dedicada à prevenção do suicídio, registrou 27 mortes incentivadas pela internet apenas na Grã-Bretanha. A vítima mais jovem tinha 13 anos.
LEGADO PRECOCE
Yoñlu compunha, fazia os arranjos, tocava piano e violão. Acima, a capa do CD póstumo que será lançado neste mês pela Allegro DiscosNo mundo virtual não há nenhuma perversão nova, apenas as velhas modalidades que já assombravam as ruas da realidade. A diferença é que, na internet, qualquer um pode exercer seu sadismo protegido pelo anonimato, na certeza da impunidade. Basicamente, a idéia é: “Se ninguém sabe quem eu sou, não só posso ser qualquer um, como posso fazer qualquer coisa”. Megan Meier, uma adolescente americana de 13 anos, foi uma vítima da mais banal das maldades, cuja potência de destruição foi multiplicada na internet. Depois de receber mensagens hostis de um “amigo” virtual no site de relacionamento MySpace, Megan subiu ao 2o andar da casa e se enforcou com um cinto no closet. Josh Evans, um garoto musculoso de 16 anos, louco por pizza, tinha dito a ela: “Você é uma pessoinha de m.... O mundo seria bem melhor sem você nele”. O detalhe: Josh nunca existiu. Era uma criação coletiva de suas vizinhas para se divertir com a menina gordinha.O brasileiro Vinícius Gageiro Marques deixou o inventário de seu suicídio. Documentou sua morte na carta de despedida impressa em papel e no registro virtual da internet. Seguindo seus passos, é possível chegar ao impasse de uma época em que adolescentes habitam dois mundos – mas os pais só os alcançam em um.Como Yoñlu, ele marcou seu suicídio no mundo virtual para as 11 horas de 26 de julho de 2006. No mundo real, Vinícius estava havia dois meses em internação domiciliar por determinação de seu psicanalista. Ele era um garoto superdotado, descrito como “extraordinariamente inteligente” e “extremamente sensível”. Filho único do casamento de um professor universitário que foi secretário de Cultura do Rio Grande do Sul com uma psicanalista, ele teve todo o estímulo para desenvolver inteligência e sensibilidade. Alfabetizou-se em francês quando a mãe fazia doutorado em Paris com a historiadora e psicanalista Elizabeth Roudinesco, biógrafa de Jacques Lacan. Mas o mundo doía em Yoñlu, como mostram as letras de muitas de suas músicas. Sua questão não era morrer, mas fazer a dor parar."Os fones de ouvido eram o caderno dele. Não levava nada, não ouvia o professor e depois passava por média em tudo’’GENOVEVA GUIDOLIN, orientadora educacional do Colégio Rosário.Vinícius criou uma fantasia para enganar os pais: a de um adolescente “normal”. Disse a eles que queria fazer um churrasco para os amigos, que estava interessado numa “guria”, que preferia não ter os pais por perto. Dias antes, pediu ingresso para um show que aconteceria depois de sua morte, iniciou um tratamento de pele, foi ao supermercado comprar a carne. Simulou um futuro onde não pretendia estar.Vinícius parecia “curado” no mundo real. Na internet, porém, Yoñlu pedia instruções sobre o melhor método de suicídio. Em 23 de junho, comentou que adiaria sua morte porque muita gente estava elogiando suas músicas. A faixa 10 do CD, “Deskjet Remix”, em parceria com um DJ escocês, tocava em festas eletrônicas de Londres. O mundo virtual de Yoñlu alcançava gente de vários países em sites de suicídio e fóruns de música, com quem conversava num inglês desenvolto.Enquanto Vinícius tecia uma fantasia no mundo real, a realidade estava onde os adultos de sua vida não esperavam encontrá-la: no mundo virtual. A mãe arrumava a mesa para o churrasco de ficção. Bem ali perto, o computador anunciava a morte do filho pelo método conhecido como “barbecue”. Por volta de 11h15, os pais saíram do apartamento que ocupa três andares de um prédio da família, num bairro de classe média de Porto Alegre. Por volta das 12 horas Vinícius ligou para o celular da mãe, avisando que os amigos tinham chegado e que estava “tudo bem”. Às 13 horas, os pais deixaram o violão, que estava no conserto, na portaria do prédio. Vinícius foi buscá-lo. Três horas depois, os pais leriam: “Para garantir uma margem segura de tempo, inventei a história do churrasco, pedindo para que vocês saíssem de casa durante todo o dia. (...) Essa medida fez com que o churrasco de hoje parecesse um grande progresso no que tange a minha condição psíquica, quando na verdade era justamente o contrário”.O que aconteceu depois foi gravado por Yoñlu no computador. Às 14h28, ele postou num grupo de discussão, sempre em inglês: “Estou fazendo esse método CO (suicídio por inalação de monóxido de carbono) neste momento e tenho duas grelhas queimando no banheiro. Aqui está a foto. Alguém pode me dizer se há carvão suficiente e quando eu posso entrar no banheiro e me deitar? Por favor, por favor, me ajudem! Eu não tenho muito tempo”.Uma canadense avisou a polícia gaúcha que um garoto se suicidava na internetA foto mostra duas churrasqueiras portáteis com chamas, uma ao lado da outra, num banheiro. Às 14h42, alguém diz: “Como você está se virando? Espero que você consiga o que quer. Talvez você volte daqui a pouco tossindo”. Dois minutos depois, Yoñlu escreve: “Ah, meu Deus. Eu não consigo suportar o calor, está tremendamente quente naquele banheiro. O que eu devo vestir para se tornar mais suportável? Eu tomei uma ducha antes, mas não adiantou nada. O que eu posso fazer? E o que eu devo fazer para desmaiar, por Deus?”.Um bombeiro aposentado de Chicago, segundo o inquérito policial, orientou Yoñlu a retirar as roupas, encharcar algum pano e se enrolar nele para suportar o calor até o momento de desmaiar. O último post de Yoñlu, de Gay Harbour, como ele chamava causticamente Porto Alegre, foi às 15h02. Muito tempo depois, alguém escreveu: “Acho que funcionou, já que ele não entrou mais em contato”.Às 15h45, o policial federal Enrico Canali, de Porto Alegre, foi chamado ao telefone porque era fluente em inglês. No outro lado da linha estava o policial Ken Moore, de Toronto, no Canadá. Lindsey, uma universitária canadense, amiga virtual de Yoñlu, procurou a polícia de sua cidade para avisar que alguém no sul do Brasil estava se suicidando. Deu o endereço de Vinícius, obtido com outro amigo virtual. Canali acionou a Polícia Militar.Os PMs Volmir da Silva Ramos, sargento, e Fernando Hermann Heck, soldado, tentavam conter uma mulher em surto psicótico debaixo de um viaduto quando foram chamados pela central. Eram 16h10. A zeladora do prédio demorou 15 minutos para deixá-los entrar, assustada com a presença da polícia narrando uma história que soava absurda. Chamou o avô de Vinícius, que morava em outro apartamento do mesmo prédio. “Não é possível. Só meu neto está aqui, e ele está com os amigos, numa festa”, ele teria dito aos policiais. A cena que encontraram não precisa ser descrita.Durante cerca de uma hora, o serviço médico tentou reanimar Vinícius. Ele explicou aos pais na carta: “O método que escolhi foi intoxicação por monóxido de carbono, é indolor e preserva o corpo intacto, mas demora, e se a pessoa é resgatada antes de morrer fica com graves lesões cerebrais e torna-se um vegetal”."Eu dizia que ele era um velho brincando de adolescente na rede. Dizia sai, deixa para os netos. Então ele me mandava a voz para provar que era jovem’’FELIPE DI MELO, de 19 anos,amigo virtual. Quando o sargento constatou que estava tudo acabado, puxou o pai e a mãe do menino para que ficassem juntos – “porque agora só teriam um ao outro” – e foi embora. Os pais nem precisariam ter lido a carta para entender: “Não houve churrasco, não havia colegas nem guria que eu goste. Peço desculpas pela maneira trapaceira com que arranjei meu suicídio. Peço desculpas também pela maneira assustadora com que a notícia chegará a vocês. Foi a maneira que encontrei de garantir um dia inteiro sozinho a fim de conduzir o procedimento da maneira mais segura”.Vinícius era um garoto de 1,83 metro de altura, magro e bonito. Mas não era essa a imagem que via. Em alguns momentos, segundo o inquérito, sentia que seu corpo se desintegrava, que seu rosto estava deformado. Procurava então um espelho para ter certeza de que estava ali. Na escola, quando tinha essa sensação, levava um CD para poder se olhar sem chamar a atenção. Aos 12 anos, ele já lia Kafka.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Quatrocentos e quinze

- Desce, vamos tomar um sorvete ou qualquer coisa que refresque. Tô derretendo!
- Tá, tô indo.
O interfone fez 'clic' e a garota endireitou a boina branca com bolinhas pretas na cabeça, admirando seu reflexo no vidro escuro da porta da portaria do prédio. Usava óculos escuros com lentes grandes em degradê marrom e armação branca fininha, tinha cabelos pretos com cachos nas pontas a emoldurar o rosto moreno e um sorriso brilhante.
Era verão e o céu estava azul olhos-de-Philipp, o sol sorria lá em cima e as nuvens brincavam sapecas pelo azul daquele céu. Aquele domingo simplesmente pedia sorvete e amiga.
- Sorvete, então?- a garota com uma boina jeans claro e lindos cachos marrons escuro jorrando da cabeça, indagou enquanto se esgueirava pela tal porta de vidro. Ela tinha os olhos mais doces do mundo e girassóis no sorriso. 'Constelações de pintinhas' alojavam-se em seu nariz e bochechas e seus olhos cor-de-mel tinham lampejos dourados que dançavam quando ela sorria.
As duas meninas caminharam pelas calçadas inundadas de sol, todas sorrisos, com os cabelos a dançar em suas costas, cheias de verão e de vontade de sorvete. Iriam inutilizar o domingo juntas com sorrisos, músicas, verão, sorvete, risadas, conversas jogadas fora, friendship.. Uma abelha e um vaga-lume voando juntos por aí é uma coisa rara de se ver, quanto mais num dia de verão.



E sabe oque,dona Bee?A senhorita me deve um fazedor de bolhas!

domingo, 1 de junho de 2008

Borboletas na minha parede

São essas coisinhas pequeninas e brilhantes, entende? É quando alguém te diz que 'eu acho que ela precisa de um abraço' foi a poesia mais carinhosa que já recebeu ou que você é a Amèlie Poulain da vida de alguém. Quando te fazem um pote de vaga-lumes de papel ou cantam pra você de madrugada. Quando te mandam depoimentos repentinos dizendo que não existem palavras pra descrever oque sentem por você ou quando tentam te ensinar a falar 'ich liebe Dich' sussurrando em teu ouvido sílaba por sílaba. Quando abelhas te dizem que querem ser igual a você e pedem pra você ensiná-las como. Quando aceitam seu pedido de ser teu irmão mais velho ou quando te mandam depoimentos simplesmente pelo prazer de fazer isso. Quando te dizem que te amam mais do que já amaram qualquer outra pessoa e que tudo bem se você não se sentir assim também. Quando você diz pra alguém que ela tem os olhos mais doces que você já viu e ela sorri o sorriso mais sincero que já sorriram pra você. Quando te chamam de 'melhor amiga' ou de 'amor da minha vida'. Quando alguém te abraça forte e diz baixinho 'eu amo você'. Quando te escrevem crônicas e te fazem desenhos ou quando você sai pra ir ao banheiro no meio de uma aula e dá de cara com uma amiga no corredor que vem correndo com o maior sorrisão no rosto e pula em cima de você. Quando você consegue estar há 8 anos ao lado de alguém, chamá-la de ' "irmã" ' e amá-la cada dia mais ou quando uma pessoa que você só viu duas únicas vezes em toda a sua vida te dá os melhores conselhos (soluções pré-fabricadas) que alguém poderia te dar. Quando você faz um pedido coletivo à uma estrela cadente ou quando você assiste a um nascer do sol ao lado de alguém que você ama. Quando você chora de tanto amor e sorri tanto que suas bochecas começam a doer. Quando você ri tanto que sua barriga começa a doer. Quando alguém diz que qualquer coisa é só ligar, a qualquer hora. Quando você dorme na cama da sua mãe, quando alguém se declara pra você. Ou tudo isso junto de uma vez.
São esses detalhes, essas coisinhas brilhantes, essas poesias, todos esses corações e sorrisos.. É isso tudo junto, entende?


Smile. Big. BIGGER. Yeah, now you look happy.