segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Eu-lírico


Puxei uma cadeira e sentei-me ao seu lado. Tinha decido que era hora de perguntar, eu não podia mais adiar. Aquele mistério todo estava me fazendo subir pelas paredes. Respirei fundo uma, duas vezes, abri e fechei a boca vezes demais antes de algum som sair de dentro de mim, mas ela não notou que eu estava prester a fazer-lhe a tal pergunta fatídica, estava absorta em seus próprios devaneios que se misturavam com o líquido carregado de alto teor álcoolico que dançava dentro de seu copo e com a fumaça do Lucky Strike que ela fumava freneticamente.
- E aí, quem é você?
O cabelo dela era rosa e marrom e seus olhos escuros tinham uma pitada de esmeralda que dançava quando ela ria, ela tirava fotos e escrevia, bebia muito, tirava fotos e escrevia. E ria muito também. E fumava feito uma chaminé. Morava um pouco mais pra esquerda e dirigia um carro vermelho, fazia aniversário dois meses depois de mim e visitava a avó todos os domingos. Mas não era isso que eu queria saber. Ela entendeu o que eu estava perguntando e respondeu. Depois de beber todo o copo e enchê-lo novamente. Olhou pra mim e sorriu.
- Gosto de colar recortes e fotografias na parede livre do meu quarto e gosto de escrever as coisas que eu tenho que fazer nas costas da mão, pr'eu não esquecer. Gosto de correr, mas não corrida mesmo, sabe?, correr por prazer, quando me der vontade e no meu ritmo. Gosto de rock, de samba, de blues, jazz, eletrônica, mpb, pop e muitas outras classificações musicais. Gosto de ler e de comprar sapatos, de preferência sozinha. Ambos. Gosto de escrever e de tirar fotos. E de beber e de fumar. Gosto de tentar fazer origamis e de pintar eu mesma minhas unhas de vermelho, mas gosto também quando a manicure pinta. Gosto de paredes coloridas, gosto daquelas fotos de cabine e gosto de colecionar foto 3x4 das pessoas de quem eu gosto. Gosto de muitos 'eles' e de muitas 'elas'. Gosto de festas e de me sentir trash em algumas. Gosto da minha família toda quebrada e de viajar com os pedaços separados dela. Gosto de comer waffles pela manhã e de montar casinhas com eles. Gosto de fazer esteira na academia, de tomar banho de chuva e de sentir a areia entre os dedos do meu pé quando eu tô na praia. Gosto de deixar as ondas lamberem as minhas pernas e ver até onde a mais forte alcança. Gosto de dançar sozinha e adoro gritar bem alto. Gosto de escrever as falas legais dos filmes e gosto de ouvir a mesma música de novo e de novo de novo, até cansar. Gosto de mentiras sinceras e de gosto de copiar as coisas interessantes que eu vejo por aí. Gosto de morder, gosto de sorrir, gosto de beijar e gosto de Nestèa de pêssego. Gosto de tudo que me faz bem e insisto em gostar de algumas coisas que não me fazem tão bem. Gosto de sentar no chão da cozinha, chorar e brincar com os dedos dos meus pés quando eu estou triste e gosto de tocar cello quando me dá vontade. Gosto de ter a liberdade de escolher pra onde eu quero ir, com quem eu vou, como e que roupa eu vou usar. Gosto de música e gosto de ir aos shows das bandas que eu gosto. Gosto de mudar, mas não gosto quando sou obrigada a fazer isso. Gosto de arrogância e de sarcasmo ligeiramente temperadas com pitadas de doçura. Gosto do exagero, quase sempre. Gosto de morango, maçã e uva. Gosto do Rio, gosto de Zürich e gosto de Curitiba. Gosto de ter pessoas favoritas, mas não gosto de relações por que elas são complicadas. Gosto de verde, de roxo, de rosa, azul, laranjado, vermelho e amarelo. Gosto de árvores e de cidades com cara de metrópole. Gosto de cabelos, de sorrisos, de unhas, de peles, de olhos, de pessoas. Gosto de pessoas inteligentes. Gosto de pessoas que me fazem perguntas espertas como essa e que me deixam ser eu mesma nas horas em que eu tô afim. Gosto de poder ser eu mesma e de poder ser outras pessoas. Não gosto de quem não gosta sem saber como é.

Roubei um gole do drink dela e um trago do cigarro e ela me roubou um sorriso. E um beijo.

sábado, 27 de setembro de 2008

Só existe em português (saudade)


Hoje as saudades vieram todas, de uma vez. Foi logo depois da cólica, tenho certeza. A cólica passou e as saudades vieram, e eu chorei. De saudade, de cólica, de dor de cabeça, de TPM, de tudo. Fiquei com saudade dele que foi pra Londres, dele que ficou na Suíça, dela que eu tenho há quase uma década, dela que eu chamo 'm.a' e do meu pai, que tá no Rio e não anda merecendo nenhuma compaixão da minha parte. Fiquei com saudade de dormir na cama da minha mãe e de quando eu passava meus natais com a minha vó e com a minha tia no Rio. Fiquei com saudade de quando meus pais eram casados e tudo pra mim parecia tão lindo e mágico quando na verdade estava tudo um caos, só que eu não sabia. Fiquei com saudade do ATO - o meu primeiro grupo de dança- e das épocas de apresentação, fiquei com saudade de quando sábado era dia de ir na padaria 'da esquina' com meu pai comprar bala, chiclete e todos os itens de mesma classificação e de enxer a boca com trinta e dois mil Bubaloos e ir fazer bolhas na cara da minha cadela. Fiquei com saudade de ganhar Barbies no natal e de tocar violino, fiquei com saudade de brincar com aquelas bolinhas bate-bate e de andar de patins na varanda. Umas saudades pequeninas que tavam guardadas e que por isso não se faziam sentir, mas que agora explodiram dentro de mim. Com essas saudades pequenas vieram também as saudades grandes, mas dessas eu não quero falar. Me fazem chorar.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Indo pra lá


Acabei indo dar com a testa na janela fria d'um trem com destino a Toscana. A chuva lá fora batia forte contra o vidro e gelava minha cabeça inteira, aliviando por completo a dor lancinante nas minhas têmporas. Fechei os olhos, tentando esquecer tudo e só ouvir a chuva, relaxar, mas de repente uma montanha de livros despejou-se sobre meu colo. Assustada, dei um salto e derrubei sem querer no chão todos os milhões de livros que há um segundo estavam em cima de mim. Uma risada gostosa explodiu ao meu lado, alta, escandalosíssima, inundando o trem e sobrepondo-se ao som da chuva. Erguendo os olhos pude ver que o dono da risada era uma rapaz um bucado alto e sardento -as pintinhas cobrindo-lhe cada centímetro de seus braços e suavizando enquanto subiam-lhe pelo pescoço- , os cabelos cacheados bem ruivos, os olhos de um verde engraçado, meio amarelado e um sorriso cheio de sinceridade e doçura. Me desculpei rapidamente e ajoelhei no carpete sujo do trem, pondo-me a catar os livros dele, que tinham se espalhado todos embaixo de no mínimo 4 poltronas. Ele disse que tudo bem e que eu não precisava pegar os livros não, que ele podia fazer isso. Levantei os olhos e disse que não, que eu fazia questão e, enquanto eu catava tudo pude reparar que o ruivo tinha um gosto literário muito aguçado, títulos realmente muito bons estavam no chão daquele trem. De repente o garoto estava ajoelhado ao meu lado, me ajudando a pegar aquilo tudo do chão, pude sentir seu hálito doce no meu rosto e o cabelo ruivo dele roçar de leve na minha bochecha. Olhei pra ele e sorri, corando. E aí, de repente ele estava me beijando.

sábado, 20 de setembro de 2008

Losing control of the night


Um jogo de luzes brilhava numa pista de dança afastada, uma música meio pop rock com uma pegada meio eletrônica tocava ao fundo, junto com risadas e o zumzumzum de vozes que toda festa tem. Garçons vestidos a caráter esgueiravam-se por entre mesas ao ar livre, oferecendo petiscos e cuba libre para os convidados animados. Do lado de dentro, na pista de dança abarrotada, pessoas dançavam loucamente, como se suas vidas dependessem de seus passos, os corpos se movimentando dentro e fora da batida gostosa e forte da música pop rock + eletrônico. Do lado de fora, entre os garçons e as mesas, naquela grama meio úmida, no meio daquela noite louca, ele e ela conversavam perto de mais, escorados numa árvore ou coisa assim. Os narizes quase se encostavam e eles falavam em sussurros, sentindo o hálito doce um do outro e olhando nos olhos, vendo o colorido dentro deles dançar, sentindo arrepios engraçados toda vez que sussurravam alguma coisa, provocando-se com palavras, todos os tipos de sorrisos e olhares. Aí começou a chover e o impulso dela foi, assim como todos os outros que estavam ao ar livre, correr pra dentro da casa, onde a toda a dança estava acontecendo, mas ele a deteve segurando-a pela mão quando ela começou a correr. Puxando-a pra si ele sussurrou algo sobre deixar a chuva chover e não fugir dela, perguntando logo depois se a garota era feita de açúcar. Então, ainda segurando-a pela mão, ele lambeu todas as gotículas de água que pousaram sobre seus lábios e a beijou. Mesmo com todas aquelas gotas de chuvas entre e ao redor deles, ele a beijou e em segundos estavam encharcados pela água e pelos beijos. Ela se desvencilhou dele e sorrindo puxou-o pela mão até a pista de dança onde todo o resto da festa se entulhava, fugindo da chuva.

-Fugir pra quê?Você é feita de açúcar por acaso?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Solidão a dois


Lentamente ela desvencilhou seus dedos dos dele. Ele olhou-a surpreso, como se aquele gesto fosse inacreditavelmente inesperado. E era. Vez os outra davam-se as mãos, mas sempre esteve certo de que seria assim, esporádico, e quando estavam juntos pertenciam-se, por isso o rapaz se espantou ao sentir os dedos quentes da garota sliping away, já que esse era um dos momentos em que eram um do outro. Mas não hoje. Hoje ela resolveu dizer a ele que não devia ser assim, que era algo doentio o que eles tinham, que era errado. Ela afagou o rosto e mordeu de leve a bochecha dele, sussurrando ao pé de seu ouvido "Vai". "Vai? O que você quer dizer com isso?", a voz dele carregava doses cavalares de desespero, ele não entendia. "Você tem que ir. Eu tenho que deixar você ir. Você sabe que a gente não pode continuar assim e se você não for agora eu vou mudar de idéia por que num segundo tudo isso que temos parece inaceitável, errado e no segundo seguinte eu não vejo nenhum problema pra continuar como estamos. Não tenho certeza do que estou fazendo agora e não sei por que estou te mandando embora, mas algo me diz que deve ser assim, então, por favor.. Vai.", a voz dele era de súplica, como se fosse um sacrifício enorme pra ela deixá-lo ir. E era. "Como era aquilo que você falou sobre mudar de idéia se eu não for embora agora?", ele a beijou e sorriu. E ficou.

Vai dar tudo errado.

domingo, 14 de setembro de 2008

In The Land Of Women


o Adam Brody se inclina dramaticamente sobre a Meg Ryan e a beija, ele e toda a sua perfeição beijam a Meg Ryan e toda a sua desengonçada -e notavelmente irresistível para o sexo masculino- personalidade. A chuva, a música de fundo e o contexto obviamente criam o maior clima, situação super propícia ao beijo. Eles se levantam e continuam a se beijar, bem em frente às casas dele e dela, como se a avó moribunda dele e a família desestruturada dela não pudessem, a qualquer hora, resolver colocar a cabeça pra fora da janela ou abrir a cortina por alguns momentos e vê-los ali.
Me deu uma vontade de viver perigosamente, de fazer coisas que eu não devia. Porque, mesmo sendo errado, fazer esse tipo de coisa faz você ter consciência de estar vivo, faz você sentir que você está exatamente onde deveria estar naquele instante. É viver, entende? A gente tem que quebrar as regras de vez em quando.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Märchen Prince


Virei o rosto, tentando mudar de assunto, mas ele insistiu, me fez milhões de perguntas, brincou com uma mecha do meu cabelo, sorriu. Algumas crianças corriam pelo parque, brincavam nos briquedos coloridos e velhos, as bochechas coradas e o suor brotando nas testas. Ele segurou meu rosto pelo queixo e virou-o para ele, me forçando a olhá-lo, aqueles olhos tão azuis. "Não quero falar sobre isso", anunciei com um tom de voz que deixava claro como eu me sentia desconfortável e incomodada. Ele acenou com a cabeça e sorriu, me deixando tonta e hipnotizando, como ele sempre faz quando sorri. Eu enfiei dois morangos na boca e quando eu terminei de mastigar ele me beijou, mudando de assunto.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Hoje foi divertido


Grama, muita grama. Verde brilhante se estendendo até onde a vista alcançava, refletindo nos olhos escuros da garota. Ela sorriu de orelha a orelha, um misto de empolgação, alegria e adrenalina repentinos tomando conta de cada célula do seu corpo. Abriu os braços e correu pelo gramado gigantesco salpicado de florzinhas minúsculas rosas, amarelas, azuis e vermelhas. Ria feita criança, a boca entreaberta e as bochechas coradas. Só fiquei olhando ela correr, os cabelos escuros dançando atrás dela, volta e meia batendo em seu rosto, o sorriso do tamanho do sol zunindo por aí. Dei uma gole na minha água e resolvi ir correr também.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

- E você vai fazer algo?

- Eu não. Vou só ficar aqui tocando a minha vida com um sorriso no rosto fingindo que tá tudo certo.
- Faça isso. É o melhor a se fazer mesmo. Everything's gonna be alright.

'Para as coisas ficarem bem
Sorriso'

domingo, 7 de setembro de 2008

Sobre vocês dois


Folhas douradas, vermelhas, laranjadas e amareladas caíam em todo lugar e o cheiro era de café fresquinho. Tudo bem brega, muito clichè e meio gay, mas no meio do correr apressado da vida e da cidade, o tempo pareceu parar num raio de três ou quatro metros, enquanto estavam ali . Era tudo o que eles precisavam.
Quanto tempo fazia já não tinham mais certeza.. 15 ou 20 anos, quem sabe.. Não fazia diferença de qualquer forma, tudo o que importava era que estavam ali até hoje, lado a lado, e o que eles sentiam não tinha data marcada ou prazo de validade, só existia e acontecia ao redor dos dois, sem que eles percebessem.
Brincaram com os dedos um do outro em silêncio, respirando fundo aquele ar com cheiro de café e sentiram os segundos com gosto de açúcar escorrerem por seus cabelos e pele.
- Obrigada.. - ela espremeu as palavras pelo sorriso torto que teimava formar-se em seu rosto, por mais que ela tentasse reprimí-lo. Ele segurou seu queixo com a mão e virou o rosto dela para ele, olhando-a nos olhos.
- Pelo que, sua boba? - os olhos dele eram escuros, intensos e pouco visíveis por baixo do cabelo liso que caía-lhe sobre o rosto. Ele usava o cabelo assim desde a adolescência e dava-lhe um aspecto meio irresistívelmente desarrumado, como quem acabou de acordar.
- Por ser assim.. Por me olhar com esse olhos desde a 5ª série, os mesmo olhos há tanto tempo.. Por estar comigo, ao meu lado, até hoje e por aceitar as consequências e as dores de cabeça que esse estar trás.
Ele sorriu, bagunçando os pensamentos todos dentro da cabeça dela.
- Agradecendo você faz soar como se fosse um sacrifício, um esforço pra mim quando você sabe muito bem que é exatamente o contrário. Sabe que estou aqui ao teu lado até hoje por que isso me faz bem, por que você me faz bem, por que você é a amizade mais longa e duradoura que eu tenho. Mas como sei que agradecer faz você se sentir aliviada ou o que quer que seja, tudo bem, deixo você agradecer. - ele deu-lhe uma piscadela divertida e ambos sorriram.
- Obrigada.. Por me deixar agradecer e por isso que você falou e que eu não consigo repitir. - eles riram e a gargalhada alta dele fez o ar vibrar e ela rir mais ainda - Ah, droga.. Eu te amo! Muito.
- Eu também. Amo mais do que sou capaz de compreender. E expressar. Você não sabe o quanto é importante pra mim.
Agora ela chorava. Lágrimas finas e brilhantes corriam por suas bochechas, por entre suas pintinhas. Ele aparou uma com o dedo e sorriu ligeiramente ao observar a gotinha de água salgada escorregar por seu dedo longo e fino.
- Você é lindo.
Ele deu-lhe um beijo no canto da boca e sorriu. Tudo bem brega, muito clichè e meio gay, de novo. A relação era incompreensível e os sentimentos se misturavam todos como num liquidificador, mas tudo bem por que independente disso eles eram amigos.



Peço permissão
, mesmo que atrasada uma vez que agora o texto já tá escrito, pra escrever sobre você e o David, Bee. Você deixa? É bem fictício e se você não gostar pode até fingir que não são vocês dois..

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Início (?)


(...) Uma embarcação surgiu no horizonte, em meio ao verde brilhante de ilhas e o branco suave das nuvens e foi se aproximando da praia. Aos poucos pude perceber que, inacreditavelmente, tratava-se de um clipper que, apesar de suas velas, movia-se com a velocidade de um barco a motor e que carregava no topo de seu mastro central uma bandeira. Uma bandeira preta que dançava graciosamente com o vento. Uma jolly rogger.


To be continued..?Acho que eu tenho que escrever isso logo,antes que alguém o faça,certo?