quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Remeber december

Aquiesci e me ajeitei melhor, pra poder escutar. Escutei a cidade borbulhando lá fora, a TV ligada lá embaixo, o computador zunindo ao meu lado, meu cigarro queimando na janela, um bater de asas mais distante.. E escutei além das batidas do meu coração, além da minha respiração e do meu estômago reclamando de fome. Eu ouvi as mudanças que começaram a se definir em mim, e eu sei que só de ter parado pra ouví-las já um bom sinal.
Normalmente eu não ouço nada.



It's like being on painkillers, you see? Just calm, happy, stress free. A subtle kind of fireworks in my brain and body. To be still is so unfamiliarly nice.
This is a new kind of breathing in breathing out. I like it.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Ênfase na pontuação

Nossa história acabou
Na minha exclamação final
Mas agora tua afirmação mudou
E fez do fim, reticências inicial

Com ou sem pontuação (início, meio ou fim)
Só preciso que veja e consiga entender
Que toda a exclamação que se definiu em mim
Nunca vai voltar a querer nos escrever


I just can't do this right now. I can't screw this up, you have to understand.
In fact, I can't do this anymore. Never again.
You're not my only exception. You never were.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Blackbird

Eu pensei em escrever - e escrevi. Na cabeça, com palavras bonitas, reticências e pontuações sofisticadas. Sempre fui boa com as palavras, mas elas nunca gostaram muito de mim, então fugiram quando tentei colocá-las num papel ou até na palma da mão.
Essas coisas me cansam muito, sabe. Fugas, eu quero dizer. Pessoas que escapam, palavras que fogem, segundos que vão embora pelos dedos.
Já basta pra mim a minha própria fugacidade. Tudo de fugidio que eu preciso tenho na minha alma de passarinho, além de toda a dificuldade de lidar com o caráter do que é fugaz. Toda a dificuldade de lidar comigo mesma, that is.
Com os desapontamentos, aprendi que a melhor forma de controlar a minha vontade de ir embora, é me segurando. Seguro a boca e o coração, o tempo inteiro. Seguro até os dedos, algumas vezes. Se um dia eu me soltar, não sei. Tenho medo de acabar o ar.. Então espero que quando isso acontecer, tenha alguém por perto pra me segurar. Quer dizer, se eu me soltar a tendência é que eu vá pra longe, certo?
Já sou perdida demais pra ir pra qualquer lugar.

Por isso tô achando que acertei o pulo quando encontrei você.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cutículas cor-de-rosa

Olhou o relógio. Ainda era muito cedo, quase 5 da manhã. Mas sua insistência era determinada e ela ficou. Acendeu um cigarro pra ajudar a passar o tempo, e entre uma tragada e outra, ouviu a janela se abrindo acima de sua cabeça.
A meia-calça ficou presa na calçada e se rasgou quando ela levantou, mas já haviam outros tantos rasgos e furos que mais um não faria tanta diferença. Nem na meia e nem no coração.
Um pedaço de garota apareceu na janela, os olhos e as maõs borrados na mesma proporção, os cabelos ruivos sujos e embaraçados.
- Oi..
Ela só fungou em resposta. Estava chorando.
- Posso subir?
A menina na janela deu de ombros e a alça do seu sutiã escorregou pelo braço.
Como se comportar ia sempre no caminho absolutamente oposto ao querer.
Ficaram se olhando durante muito tempo antes da garota na janela resolver que talvez seria melhor descer..
Já eram quase 7 da manhã.



Fora o tanto que eu me perco,

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

It's later than you think

A água inundou-lhe os olhos, de fora pra dentro, e diluiu bruscamente suas íris de avelã. Ela encarou-o quase com força, deixando seu desespero transparecer mais do que desejava. Ele sabia que a claustrofobia da garota começaria em menos segundos do que ele seria capaz de contar e sabia também que precisava fazer alguma coisa. Ela ia desmoronar.
Tomou-a nas mãos, segurando seu queixo fino com as pontas dos dedos e tentou olhar nos olhos aquarelados dela, as íris dançando na água que entrava num ritmo constante. Era assustador vê-la tão vulnerável, sem sua eterna fortaleza de pedra pra proteger-lhe o coração. Ele teve medo de que se a segurasse um pouqinho mais forte, ela quebraria em suas mãos.
Foi então que ela começou a chorar, desarmando-o tão repentinamente quanto possível e tirando-lhe totalmente a hesitação, ao contrário do que seria esperado. Aproximou-se de seu rosto molhado e amparou uma lágrima com a ponta do nariz. Beijou-lhe os olhos de leve e depois sussurrou com voz de brisa.
- Não chora, meu amor.
..A água parou. E as lágrimas. E as íris se consolidaram devagar, como uma aquarela ao contrário.
Ele teve medo, achou que com o cessar das lágrimas, a fortaleza voltaria e consequetemente, ele seria afastado dela por ela própria. Pelo bem do coração.
Mas não. Ela esfregou os olhos castanhos e depois olhou pra ele. Não foi preciso sorrir, ou abraçar, ou beijar, ou dizer. A íris avelã contou pra ele.



Sometimes, all people need is their fortress to colapse.

domingo, 15 de novembro de 2009

You know how people can get you down with their annoying and exagerated happiness?
Well, I find out today that when this is going on, the problem is you. Not them. You are the one who's not altruistic enough and should see a shrink.
House is the only guy who looks charming and cool for being so selfish.

Seis tons de azul e amarelo

Ocasionalmente um ou dois carros passavam e o ar que ficava pra trás zunia com ferocidade. Dava pra ver o calor subindo em vapor do asfalto impiedoso que castigava nossos pés cansados. Até o ar parecia estar com calor.
Sentei no meio-fio e olhei pra ela com cara de cachorro abandonado, lambendo meus lábios ressecados e limpando o suor da testa com as costas da mão.
- Cansei, garota. Vamos sentar um pouco, quem sabe você não consiga uma carona pra gente.
Ela se sentou e me estendeu a garrafa d'água, depois se deitou na grama meio amarelada, esticando os braços pra trás o máximo que podia.
- Não vou mostrar minhas belas e tonificadas pernas numa high road no meio do nada só porque você tá com preguiça de andar mais míseros 4km.
- Só 4?
- É.
- Achei que faltassem no mínimo 20.
- A gente já andou 20, tolinho.



Olhei pra ela protegendo meus olhos do sol com a mão. Cada pedacinho do seu rosto brilhava por conta do suor, e o tom dourado da sua pele refletia a claridade de uma maneira hipnotizante. Deitei-me ao seu lado, esticando meus braços também até encontrar suas mãos.
O modo com que as nuvens dançavam no céu azul-lápis-de-cor era tão convidativo que meus pés começaram a balançar involuntariamente no ritmo branco lá de cima. O ar estava com gosto de camomila.
Ouvi ela se virando pra mim e me chamando num sussurro confortável.
- Que é?
Ela sorriu e me beijou no nariz.
- Vamos, seu preguiçoso. É melhor a gente começar a andar se quisermos chegar antes de anoitecer. Ou você quer ficar zanzando por aí no escuro, correndo o risco de ser atacado por algum maníaco psicopata que vai arrancar seus dedos com uma maçaneta?
- Não dá pra arrancar os dedos de ninguém com uma maçaneta.
- Nunca subestime um maníaco psicopata, meu amor.
Deixamos a silhueta dos nossos corpos na grama amarela enquanto as nuvens dançavam e os carros passavam, sur une dimanche du camomille.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

You come along because I love your face

Meus pés latejantes e cansados me arrastaram lentamente até o metro quadrado de grama mais próximo e mesmo com o resquício de chuva que se espalhava pelo verde, me larguei ali e fiquei deitada examinando as sensações diluídas nas pálpebras dos meus olhos.
Deu pra sentir quando ela se deitou do meu lado, e mesmo de olhos fechados eu sabia que era ela. Ninguém mexia a grama desse jeito, fazendo esse estardalhaço todo, só pra se deitar. Ela esticou os braços e cutucou a minha cabeça, perguntando se eu estava viva.
- Estou sim, você não me viu chegar até aqui?
Sempre fomos assim, ao contrário. Meu humor negro, minhas respostas ácidas pra todo e qualquer tipo de pergunta e a minha não-demonstração constante de afeto contrastavam fortemente com a doçura natural que ela tinha no olhar e nas bochechas boas de morder. Eu sempre fui a cruel e ela sempre foi a amável. But we always got along really well. Menos quando não nos dávamos bem.
- Sabe.. Acho que eu nunca vou querer voltar pra casa.
- Sua mentirosa.
- Não, é sério. Acho que não vou mesmo.
Ela olhou pra mim e depois se sentou. Encarou o pôr do sol refletido no Palacio Real antes de olhar pra mim de novo.
- Mesmo mesmo?
- Mesmo mesmo. Você vai querer, eventualmente, mas eu não.
- Eu sei.
Esfreguei meus olhos, cansada. A chuva que ficou na grama tinha sido absorvida pela minha roupa onde eu tinha me deitado, e se me levantasse daria pra ver a marca do meu corpo. Mas eu continuei deitada.
- Você pode voltar quando quiser, é óbvio. Quando se cansar. Eu não vou achar ruim, sabe, ficar com o barco todo pra mim!
Rimos em sincronia.
- Eu sei - ela murmurou, suspirando. Então se levantou num salto, olhou pra mim e estendeu a mão - Anda logo, levanta! We've got some tattoos to do, don't we?
Me levantei e nos encaramos.
E ela sorriu.


Bem melequento, mesmo. Imploro por perdão, mas meus dedinhos estavam formigando pra escrever alguma coisa. Pena que não tenha saído lá essas coisas.
E desculpa por colocar você num texto tão ruim, hündin.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mazel Tov

É que eu tenho ouvido muito essa frase, sabe? 'Como é que você tá, Ila?'
Daí vem a resposta 'Eu tô bem, e você?', que é imediatamente acompanhada de um sorriso esplêndido, brilhante e colgate. E que parece que não vem mais surtindo o efeito que deveria: mudar o rumo da conversa de 'questões pessoais' para 'clima e política; superficialmente'.
Mas é que eu odeio ter esse tipo de discussão, dá pra entender? Odeio dizer pras pessoas como eu estou, o que está me afligindo, 'como eu me sinto sobre isso' e todo esse papo que a gente ouve da boca de uma uma psicóloga gordinha com o penteado preso aos anos 70, blábláblá whiskas sachê.
Eu não tenho esse tipo de conversa nem com a minha melhor amiga, quanto mais com todas as outras pessoas que me perguntam constantemente como eu estou. Talvez com a piscóloga gordinha eu teria, quem sabe.
A questão é que eu não vou te dar nada muito mais específico do que um 'ah, ando cansada, de tudo' porque sou orgulhosa, correndo o risco de soar clichê. Sou orgulhosa mesmo, a ponto de preferir ter gastrite e anemia por motivos emocionais do que pegar o telefone, ligar pra alguém e contar dos sofrimentos.
Orgulhosa a ponto de não querer mudar, por orgulho.
E essa característica vai permanecer, assim como a minha gastrite que provavelmente evoluirá para uma úlcera hemorrágica e esse será o meu fim.
Dramático assim.

(e rimando)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Precisa-se de alguém que goste de tulipas

amarelas. Alguém que goste de filmes clássicos, principalmente dos em preto e branco com piadas infames e frases que se tornaram quotes inesquecíveis. 'He is looking at you, kid'. Alguém que leia mais do que eu, pra ver se eu engato logo nessa história de ser rato de biblioteca. Alguém que saiba lidar melhor do que a minha melhor amiga com as minhas milhares de personalidades. Precisa-se de alguém que, apesar da minha falta de memória, me faça lembrar de fazer os deveres-de-casa, de lavar a louça, de não me esquecer.. Alguém que escreva poemas sobre as minhas covinhas e brinque com o meu cabelo pela manhã, enquanto eu não acordo. Alguém pra deixar bilhetes na geladeira 'Acabou o pão o e café, mas não entre em pânico. Fui comprar'. Alguém que sobreviva à minha inconstância e ào meu espírito aventureiro de pirata reprimido, alguém pra rir das minhas piadas boas e pra me dizer quando forem ruins. Alguém que saiba quando eu estou fingindo, que divida algodão doce comigo e cozinhe pra mim sempre que eu tiver preguiça. Precisa-se de alguém que verbalize meus sentimentos, que tire fotos bonitas de mim e que seja fotogênico e tímido o bastante para que as fotos que eu tirar dele sejam exepcionalmente magníficas. Alguém que saiba diferenciar amor de sexo e que ria de mim quando eu enfiar morangos nos dedos e os lambuzar de açúcar. Alguém com gosto musical no mínimo aceitável, que não entenda nada de arte nem de física, que goste de peixinhos em aquários grandes e coloridos e que não me acorde nem muito tarde nem muito cedo nos domingos. Alguém que ceda quando meu orgulho não me deixar ceder, alguém que me ensine a ser menos orgulhosa e que aceite que simpatia simplesmente não tem nada a ver comigo. Alguém que goste de pizza de chocolate, de chapéus Panamá e de filmes de ação e porradaria com beijos cinematográficos no fim. Precisa-se de alguém que não se importe. Alguém que não se importe com as minhas mudanças de humor, com a minha visão negativa do amor, com o meu não-me-importo-e-odeio-o-mundo. Alguém que me deixe ser difícil quando eu precisar ser, mas que me coloque na parade quando tiver chegado o limite. Alguém que aprecie a ambiguidade dos momentos irônicos e a suavidade dos dias ensolarados, alguém que beba, que fume e que me deixe chamar o garçom nos restaurantes, mas que insista em pagar a conta. Alguém que me tenha por completo, que me tire do chão e me vista em suas camisas, alguém que goste de banhos de madrugada e de nadar de manhã. Alguém que sinta a instensidade e não se importe com a futilidade que às vezes vem à tona.
Ou alguém que seja totalmente o oposto de mim e que por isso mesmo, me prenda e me convença a não ir embora.


Remember that time you drove all night, just to meet me in the morning?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A cena de uma cena

Deitados na carroceria da caminhonete amarelo-banheira, os peitos abertos para o céu, sentiam a corrente de ar marítimo ziguezaguear acima de suas cabeças deixando um gosto salgado na boca. Ela interrompeu o silêncio das ondas enquanto ele fechava os olhos, simultaneamente.
- Tenho a minha cena, parceiro.
- Finalmente.
O salgado concentrava-se na ponta da língua. Ela lambeu os lábios pra espalhar o gosto antes de continuar.
- É a cena em que você se despede. Tudo muito amarelo.. Tem a caminhonete, aquele meu vestido e lágrimas.
- Amarelas?
- É.
- A grande cena de despedida é amarela?
- É. Um amarelo meio antigo, sabe? Como se fosse um foto velha que ficou guardada muito tempo.
Ele tateou no escuro e se arrastou preguiçosamente pra cima dela, apoiando-se nas mãos para poder olhá-la nos olhos. Ela sabia que ele não ligava muito pra cena da despedida, mas que fingia se importar porque sabia que era importante pra ela.
- Eu vou morrer, Lis.
- Eu também. Todos nós vamos um dia.
- Mas eu vou primeiro.
- Vem cá.
Ela puxou o garoto pelo pescoço e o beijou.

domingo, 18 de outubro de 2009

About death

Sexta-feira eu fui a um enterro - meu bisavô faleceu aos 96 anos - e como seria de se esperar, meus pensamentos mais profundos e filosóficos essa semana são sobre morte. Em primeiro lugar, se você nunca foi a um funeral be glad. São cerimônias desagradáveis que conseguem deixar qualquer um à flor da pele, independente do número de lágrimas que derrame. Eu já fui a cinco e nunca chorei, mas passo pelo menos um semana depois me sentindo desagradavelmente esquisita. A energia dos cemitérios é tão pesada de uma forma tão ruim que todo mundo fica mais sensível, invariavelmente. Eu sempre achei que, apesar do clima triste e obviamente mórbido, cemitérios são um dos lugares mais tranquilos que você pode achar hoje em dia. Observe: além do pranto ocasional - e isso só se você estiver perto das capelas de velório - tudo que dá pra ouvir é o vento, passarinhos, e.. basicamente só. Ironicamente tranquilo e pacífico. Mas ainda assim, os eventos que se dão são sempre desagradável demais pra que cemitérios se tornem o lugar perfeito pra ir praticar tai-chi num domingo de manhã.
Em segundo lugar, acredito que a maioria das religiões lidam com a morte de um jeito errôneo, e eu não vou nem falar da crença (não só) dos católicos de que essa é a nossa única vida, de que depois que morrermos nenhum de nós vai ter outra chance: é Céu ou Inferno e ponto final.
Eu não vejo a morte como algo ruim. Os que morrem ficam livres de ter que sobreviver nessa humanidade filha da puta que tá destruindo o coitado do planeta em que vive. As pessoas vem pra cá para aprender, e falecer significa que você finalmente cumpriu quase tudo o que veio fazer aqui, mas que tá na hora de ir embora e tentar o resto mais tarde. É como ir pra escola mesmo. A gente passa a semana toda estudando, fazendo coisas chatas, se divertindo, dever de casa, whiskas sachê, mas aí vem os fins de semana e a gente descansa, uma folga. Morrer também. Simples assim..
A gente sofre porque somos egoístas. Todos sofrem quando alguém que amam falece, unicamente pelo egoísmo de não ter mais a pessoa por perto. Egoísmo. E, sabe, tudo bem sofrer, temos o direito de sermos egoístas e sofrermos our hearts out, mas isso não mudará os fatos. Quem morre, morreu e fim de papo. Deveríamos ficar felizes por eles e festejar, como os mexicanos fazem.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Last night's

Encarou as escadas. Seria preciso encontrar uma força inexistente em si para conseguir subir aqueles degraus, mas mesmo assim se arrastou escada a cima, apoiando seu corpo pesadamente contra a parede coberta por panfletos e posteres. A festa tinha acabado já há algumas horas, mas ela só conseguiu juntar a coragem suficiente pra ir embora naquele momento. Chegou no topo da escada e empurrou a porta, suspirando a noite e as luzes cansadas da cidade. Sentou-se no meio-fio, os olhos e as mãos borrados na mesma proporção, o cabelo bagunçado, o vestido suado, mais fim de festa impossível. Um carro veio, iluminou-a com os faróis e estacionou bem na sua frente, deixando o farol alto. Ele saiu pela porta do motorista, olhou bem pra ela e foi sentar-se ao seu lado no meio-fio. Primeiro um beijo na bochecha, depois um pedido de desculpas. Ele afagou os cabelos dela, ela olhou-o nos olhos. Segurando o queixo da moça (salty cheeks and runny make up) ele disse:
- Vamos pra casa, Ila. Eu comprei lençóis novos.



-G;

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Can you keep a secret?

Nosso único momento sincero agora é quando nos abraçamos de manhã, sem ninguém pra ver. Eu odeio admitir, mas ainda existe um espaço aqui pra você mesmo que eu não saiba se um dia tu vai voltar a preenchê-lo. Ainda não descobri se é pra estarmos presentes ou ausentes e não sei se algum dia vou saber. Somos um mistério, meu amor. Mas eu ainda penso em você, às vezes, em nós e em como teria sido se eu não tivesse me assustado e fugido. Felizmente, acredito nos desencontros tanto quanto nos encontros, nas horas certas. Você é meu porto seguro, devo confessar. E em momentos de profunda solidão, seu cheiro ainda me enlouquece.

Só uma confissão, inocente e sem nenhuma pretensão. Não quero nada mudando por conta de palavras bobas e não existe nenhum objetivo secreto escondido por trás de tudo isso. Só me deu vontade de escrever, admitir de uma vez por todas que talvez eu tenha sim amado você.

I.

domingo, 4 de outubro de 2009

Blackbird



Só pra você se jogar no chão, sua sacana flamejante das montanhas. Vadiazinha sem caráter.



Te amo.

Assinado: Amor da sua vida.

Cavalo branco

Ontem eu cometi a estupidez de ir a um blind date. Me lembrem de nunca mais fazer isso de novo e, por favor, nunca cometam o mesmo erro. Não importa se o cara é o melhor amigo da sua prima favorita ou se vocês estão tendo conversas agradáveis virtualmente há quase dois meses; em hipótese alguma vá a um encontro com um cara que você nunca viu na vida. E não é só por conta das chances de ele ser um estuprador assassino em série ou, pior ainda, ser secretamente o Cthulhu (consultar Ananda em caso de dúvida), é também por causa da decepção. Por que, well, todas sabemos que expectation has the habbit to set you up for disappointment. E se você vai a um encontro às escuras e tem consciência disso, com certeza expectativas foram cultivadas com carinho no seu little heart porque, oras, vamos logo admitir que todas nós, garotinhas bonitinhas (perdão se soar superficial) dessa sociedade capitalista e que não liga muito pra valores, temos uma lista com no mínimo 3 características que um cara precisa possuir pra que possa existir pelo menos uma semente de esperança pr'um futuro relacionamento: Ser bonito, engraçado e inteligente, pelo menos. Não um Einstein nem o aluno top da sala, mas um QI mínimo é vital. E se você assistiu 'A Verdade Nua e Crua', constatou que as mais obsessivas e fucked up podem ter até 10 pré requisitos necessários em suas listas. O que é bem triste, se a gente parar pra pensar.. A verdade nua e crua é que a gente tem mesmo é que parar de sonhar com o cara que vai ser lindo, inteligente, engraçado, ter bom gosto, ser cavalheiro, não querer só sexo, beijar bem, ser bom de cama, ter um sorriso estonteante, etc whiskas sachê. É o que eu sempre digo pras meninas da 7ª série que estão esperando o garoto perfeito pra poderem perder o BV: príncipes encantados não existem, girls.
Essa é a triste verdade.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Colorblind

Há mais ou menos um ano, eu decidi que cabelos castanhos são chatos. Então, por me julgar muito descolada e estilosa, resolvi que devia ter pelo menos uma pequena porcentagem do meu cabelo sedoso e castanho-sem-graça tingido de alguma cor extraordinária. E assim o fiz. Laranja foi a cor escolhida. Sim, sim, eu tenho uma mecha laranjada marotíssima no cabelo e não é por cima, parecendo que jogaram Gatorade em mim, é por baixo; misterioso, inesperado e sexy.

Até hoje. Há um mês eu resolvi que laranja não era mais cool (apesar das madeixas flamejantes da H. Williams) e decidi que azul seria a nova cor do momento. Azul é lindo, significa liberdade, é a cor do céu, etc e tal. Ótima opção, óbvio. Óbvio nada. Péssima opção.
O que se sucedeu:
Passei bem umas duas semanas enrolando pra mudar, me despedindo do laranja blá blá blá whiskas sachê. Enfim, depois de todo o melodrama, comprei os aparatos necessários para a operação: descolorante em pó - confere; água oxigenada número 40 - confere; papel alumínio - confere; luvas de dentista - confere; anilina azul - confere. Tudo certinho, bonitinho, esperando pra ativarem seus poderes X-men no meu capilar. Passei a tarde toda dedicada à essa aventura, descolorindo, lavando, escovando.. Mas depois de três descolorações, quem foi que disse que o laranja tinha ido embora por completo? Meu cabelo encontrava-se num estado indefinido entre loiro-Monroe e amarelo-batata-frita. Péssimo. Não dava pra descolorir uma quarta vez porque senão meus fios iriam se desfazer. Sério. Eles estão tão fininhos que dá até nervoso. No fim das contas, eu desisti de tentar homogeneizar a falta de cor e pintei logo de azul. Azul, né? No potinho, só. No cabelo ficou.. verde azul. Feio. Estou frustrada e se semana que vem - quando eu passar a anilina de novo - continuar verd'azul, eu vou pintar de castanho e aceitar a cor do meu cabelo.

Que depressão. Acho que raspar a cabeça é a solução.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

In the middle of summer


Ela, atrasada, usava uma camiseta muitos números maior - bonita, mas velha - e um short jeans surrado, curtíssimo e largo. O cabelo preso de qualquer jeito, fora do lugar, até dava a impressão de ter sido arrumado para parecer descuidado. Ela entrou, todo mundo olhou. Ficou sorrindo junto à porta. Às 2h da tarde de um domingo enfadonho, com 37 graus insuportáveis no ar, quem é que sorria assim? Ela acendou um cigarro e todos pensaram.. Bom, você sabe como são as pessoas.. Cada um pensou uma coisa..
E ela sorrindo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Formas geométricas

Essa noite eu perdi o sono. Quis te ligar, mas eram 3h da manhã e você nunca dorme com o celular ligado mesmo. Engraçado como as minhas epifanias são mais verdadeiras e poéticas de madrugada, já notou?.. Os meus pensamentos fluem com mais facilidade e eu não tenho que ficar escondendo coisas e mentindo pra mim mesma e para os outros quando são 3h da manhã de quarta-feira.
Acho que nunca te disse isso (e se já disse, nunca foi tão sinceramente), mas eu gosto quando você sorri. E admiro o modo como é invencível a fragilidade dos momentos em que a gente faz confissões silenciosas, normalmente à meia-luz de uma casa adormecida ou no meio de uma multidão enfurecida nas manhãs entediantes e cotidianas. Acho incrível quando as pessoas de fora enxergam a nossa musicalidade, a sintonia, o jeito como vamos sempre seguindo a mesma direção até inconscientemente. Confesso que não me incomoda quando os ingredientes que a gente escolhe pra ir no molho do macarrão são os mesmos ou quando você não me deixa mudar de assunto até que tenha relatado detalhadamente como foi o seu dia (inclusive os momentos em que eu estava presente).
Você é minha paz, pequena.

Ich liebe Sie jeden Tag.


(Não,eu não te perdoo por todas as vezes que você disse que ia me ligar e não ligou. Aliás, você não me ligou ainda)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Minha música

Era perfeito. A tarde se estendia preguiçosa pelo gramado verde do quintal, o silêncio inspirador do domingo, o violão favorito corretamente afinado e a garrafa já meio aberta querendo ser esvaziada. E a tristeza, é claro. A tristeza inexplicável, poesia, que serviria de alimento para a melodia. Era indispensável que houvesse essa tristeza, espeficamente essa, a qual ele se recusava a relevar e guardava-a apenas para si, para usar especialmente agora. O momento perfeito.
Obviamente, sentou-se na grama com o violão no colo, a garrafa ao lado e a tristeza no peito. Tirou do bolso um pedaço de papel amassado onde muitos acordes rasurados e bagunçados foram rabiscados muitas vezes. Foram muitas tentativas, falhas, para escolher os acordes perfeitos. Tomou um gole, arrancou alguns punhados de grama e finalmente tocou. Aqueles, a primeira escolha, que vieram num lampejo de inspiração aos 16 anos e que pareceram tão certos no momento mas tão errôneos segundos depois, seriam afinal os acordes que deveriam ser e estar.
Ele compôs. As notas diziam tudo. O sol se pôs, a garrafa, o agudo.


Escreve logo, não deixa passar os anos. Não esquece de colocar letra. Sem tristeza, vai.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

6 motivos pra não gostar de mim

1- Eu minto muito. Tipo, muito mesmo. O tempo todo. E sou boa nisso, de verdade. Manipulo as pessoas e faço com que elas acreditem em mim, quase nunca sou pega.

2- Depois que eu tomo banho, os azulejos do box do banheiro ficam cheios dos fios de cabelo que saem enquanto eu lavo a cabeça. Eu grudo todos eles na parede mesmo, não estou nem aí. Não acho nojento e se incomodar o próximo a tomar banho, ele que tire.

3- Sou falsa. Se eu não gosto de você, você nunca vai saber a não ser que eu faça total questão de que tu tome conhecimento.

4- Acho as pessoas sempre desinteressantes, chatas, burras e desnecessárias. Tirando as que eu gosto, é claro.

5- Eu sou moderna o suficiente pra não ter sentimentos quando eu julgar necessário e pra não sonhar com o altar, apesar de já estar noiva muito obrigada.

6- Minha auto-estima não é alta, mas eu finjo que é a ponto de todos que não me conhecem acharem que eu sou uma filha-da-puta, nojenta, sem coração e estúpida que despreza os outros. E eu sou mesmo.

sábado, 12 de setembro de 2009

Just For The Record - 9 de Janeiro de 2009


Os muitos anos de balé lhe haviam corrigido a postura e lhe propocionado a leveza ao andar, fazendo-a parecer flutuar ao invéz de caminhar e o cigarro aceso pendendo na mão lhe dava um certo ar de uma elegância meio descolada, informal. Passou os dedos finos da mão livre pelo cabelo comprido e negro e suspirou. "Foda-se", pensou, "de quem foi mesmo essa idéia idiota de parar de beber?". Se levantou e flutuou em direção ao pequeno bar que seus pais haviam agregado à sala de estar há alguns anos, "Se eles vão beber, é melhor que façam isso em casa" foi a desculpa deles pra realizarem a pequena construção. Certo. Como se isso convencesse alguém. Apanhou uma garrafa de Jack Daniel's na cristaleira do bar e encheu um copo já com gelo até a metade, depois fechou a garrafa e ficou ali girando e girando os cubos de gelo com os dedos e bebericando o whisky.
"Ué.. você não ia parar de beber, Helena?", Diego perguntou ao entrar na sala bege e vermelha, bem decorada e arejada da família. Ele tinha acabado de voltar da sua corrida noturna diária e estava bem suado, a camiseta azul tinha várias manchas grandes de suor e gotinhas escorriam da sua testa e do seu nariz. Bem sexy. Ele tirou os fones do ouvido e esperou por uma resposta. "É, eu ia, mas mudei de idéia". O mau-humor da garota dançava no ar. "O Gael vai ficar bem chateado contigo, você tinha prometido que ia parar..", Diego sentou-se ao bar com a irmã e se serviu de uma dose do Jack Daniel's em cima da bancada. Ah, certo, a idéia idiota de parar de beber foi do namorado idiota dela. Helena tomou um gole grande do whisky e deu uma longa tragada no seu Camel n°9, oferencendo-o ao irmão logo depois. "Ele pode lidar com isso".




O segundo ato começa com uma repetição.
Abrem as cortinas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

400 years ago, some famous french guy said something about loneliness. He said that we are never alone ('never alone,NO NO!c'mon c'mon,turn a little faster!'), but of course it sounded prettier when he put it out.
'No man is an island'. Not even when you're perfectly sure that you are absolutely alone in yourself, there is always someone there to make you company. We just have to look better.



Fecham as cortinas.
Segundo ato.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Quase nada,muito pouco

Cada centímetro de cada objeto no quarto estava imóvel, e as turbulências aerodinâmicas que entravam pela janela entreaberta não eram capazes de mover nem a menor fibra das persianas. Era como se tudo ali dentro percebesse que apenas a agitação emocional que me resumia fosse o movimento suficiente para aquele momento. Tudo se calou e dentro da dita imobilidade minha crescente confusão era cada vez mais audível, seu silêncio sepulcral e sua gritaria ensurdecedora eram insuportáveis, e a cada expansão da massa atômica em meu peito, todo o resto que não fazia parte do meu narcisismo pertubado, retraísse num universo cada vez mais inerte enquanto o meu universo particular colossalmente enlouquecido, espalhava-se em mim com violência. Era tudo muito irritante: as contradições, os questionamentos, a falta de capacidade, as letras iniciais depois de cada ponto.. O conjunto em si, o eu conjunto meu eme irritava; Fiquei externamente esperando, imóvel, que o vulcão interno explodisse logo e eu pudesse - depois que tudo esfriasse- limpar a bagunça, fazer alguns reparos, trocar o que fosse irreparável e começar a tentar a lidar comigo mesma novamente. Mas não aconteceu. A explosão não veio, a tempestada vulcânica permaneceu totalmente oposta ao imóvel, a quarto prolongou o estado inerte por tempo indeterminado e a massa atômica emocionalmente agitada escapou de mim e inundou todo o universo retraído do exterior. Tudo o que eu consegui foi uma dor nas costas.


Eu sei que prometi esperar você me perdoar e decidir voltar. Prometi esperar muitas coisas e muitas pessoas, mas você sabe que eu nunca fui de ficar assim, só esperando. Tem dez anos que você sabe disso.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Out there

Todos os sentidos estranhamente aguçados se condensavam vagarosamente, e ela podia sentir o coração bater na ponta dos dedos e bombear seu fluxo sanguíneo num ritmo quase melódico. Os efeitos contrários de se expôr tanto à todas as consequências de uma pulsação cardíaca tão acelerada, ficaram embaçados e foram dissipando-se em meio aos átomos de suor e gases liquefeitos de fumaça carregada de nicotina, e em segundos ela não conseguia pensar em nenhum motivo que condenasse as cores mornas proporcionadas à sua alma e a fizesse desistir de tudo. Mas então suas hemácias de acalmaram, os sentido regrediram e se espalharam, os batimentos cardíacos voltaram ao lugar de origem e o peso de todas as constelações, supernovas, buracos negros, nebulosas, nuvens e moléculas sabor framboesa do universo se concentrou no topo de sua cabeça, fazendo tanta pressão que ela não conseguiu aguentar.

She just can't remain with all that outer space.
She breaks.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Azul

Não foi como se os meus olhos de ressaca nos arrastasse mar negro adentro, batendo e rebatendo-nos em sua amplitude castanha e suas ondas desesperadamente preenchidas pela pintura marinha das íris escuras; muito pelo contrário. Foi como ter todas as brisas e nuvens do seu céu particular do olhar ao meu redor num turbilhão que, apesar da velocidade incauculável, trouxe todos os ruídos e cheiros que vinham do azul e me deixou num extâse meio tonto e desequilibrado. Alguns acordes perdidos e sonolentos vazaram de você pra mim, completando o efeito sedativo daquele segundo.
Seria de se esperar que a essa altura você já soubesse o que fazer, mas ninguém sabia nem me dizer e eu já queria até morrer.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Because I said so

E como se não bastasse a claridade das duas horas, eu estava com soluço. Todas as epifanias de outrora não faziam o menor sentido agora, embora eu pudesse jurar que no momento em que as decodifiquei não havia nada de errado com elas. Talvez não houvesse mesmo, só o sentido que havia mudado. Mutação é a constante que frequentemente esquecemos de considerar, apesar de todas as incógnitas apresentarem desvios de personalidade tão sintéticos e tangíveis que não exista nada mais óbvio do que esse conceito. Nada é inerte. Muito menos ou principalmente os seres humanos e suas síndromes de personalidade múltiplas, suas mentes distorcidas e seus corações. Seu corações mais principalmente ainda.

Às 22h tudo estava mais calmo, mas o que eu queria mesmo era saber pra onde olhar quando os meteoros começassem a chover.

sábado, 8 de agosto de 2009

Não pra você

A imensidão de todas aquelas estrelas prateadas e luzes azuis afundaram em mim com o peso de todo o céu. Talvez não fosse disso que eu precisasse, mas fui tomada por um lampejo de aceitação, consciência e palavras que se encaixam. Tudo o que faltou foi a coragem e ao invés de me levantar e contar pra você, eu duvidei daquelas palavras e fiquei deitada ali, inexoravelmente inserida na minha própria incompetência e corvadia que me fundiam ao chão. Mas o lampejo insistiu que eu cuspisse tudo isso onde pudesse porque aparentemente minha alma é algo maior do que eu posso suportar e com tudo ao redor girando assim tão rápido, cuspir talvez fosse o remédio pro quão zonza isso me deixa. Então, aqui está. Com toda a sua profundidade inexplicável, a magnetude cinza e todo o resto que eu não sei explicar e que desequilibrou a simetria e o fluir ritmado com o qual eu já havia me acostumado. Agora terei de ajustar-me a um compasso diferente totalmente confuso cujo fim está longe demais de qualquer reticência de pensamento e que eu não consigo sentir ou perceber.
Incontestável que a sonoridade e harmonia das palavras que não são nem minhas se encaixam tão perfeitamente à corrente elétrica que substitui o sangue nas minhas veias toda vez que você se intromete no meu dia. Não era pra ser assim, não era pra tudo ter mudado tão drasticamente só por causa de você. Eu nunca nem gostei dessas baboseiras e olhos azuis sempre me encantaram mais do que verdes, então obviamente o que aconteceu foi que com toda essa luz em você eu acabei me ofuscando. Ou fui ofuscada, é difícil saber. Eu ainda não tinha nem calculado a velocidade com que isso acabaria acontecendo quando seus olhos verdes acompanhados pelo som da sua gaita em dó, me infiltraram pelas narinas voando a incontáveis quilômetros e quilométricos segundos através dos meus impulsos cardíacos. E então você se consolidou em mim, a cerca de três centímetros à esquerda da artéria pulmonar. É, no coração. E comprometendo meu sistema respiratório por completo.
Tenho certeza que provavelmente estou errada quanto à todas essas conclusões talvez um tanto precipitadas e absolutamente não características, mas no momento (e esse é todo o espaço de tempo que irei considerar, porque sei muito bem que estender 'momento' para 'sempre' é a maior de todas as tolices) 'you are the one that I wanted to find'. E eu desconheço a razão, mas é você e fico feliz de ter te encontrado, mesmo que as condições não sejam exatamente favoráveis para a minha artéria pulmonar.
Todos os meus hiatos, semínimas e conceitos acabam na única certeza de que você tem a paz, espontaneidade e a musicalidade que me fogem a cada incêndio, mas quanto à mim e à imobilidade que me prende ao chão.. Se eu disesse, promete que você entenderia? E à noite, quando os demônios se esgueiram pelas frestas e ralos , promete que você cantaria pra mim e pra você, mantendo-os longe? Tenho medo de me afogar no seu verde-mar-grama-dourado-alma-aurora-boreal-bolha-de-sabão-domingo-de-manhã-música-espanhol-e-tantos-tons-e-semitons que minha paleta de cores nem sonha em possuir..
When you got eyes like that, it's impossible not to stare at them all the time and unbelievable hard to not give you my heart.
Então toma, com a artéria pulmonar defeituosa e a arritmia desnecessária. Me perdoa por não te mandar um bilhete nem ligar avisando, mas entende por favor e vem comigo. Segura e não larga da minha mão.

jotaemeemejota.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Meu pensamento tá sem ritmo. Rumo tem, ritmo não.

domingo, 26 de julho de 2009

Anticipation has the habit to set you up

Tantas cartas. Tantas palavras desperdiçadas, que deveriam ter sido ditas mas que foram esquecidas embaixo da cama ou atrás da geladeira, escorrendo pelo azulejo da casa e se estendendo em pequenas poças.. É mesmo uma pena ver todas essas palavras bonitas serem sugadas pelo ralo e pelo rodo.
É mesmo uma pena, mas hoje eu sonhei com você. E não devia, mas sonhei. Foi um sonho bonito onde você tinha cheiro de maçã verde e limão e tava tão gostoso ficar ali sentindo seu cheiro e seu gosto que eu ignorei o despertador e dormi mais uma hora.
É mesmo uma pena eu me desperdiçar assim em você.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O sol se pôs às 22h30 hoje.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Wrapped in secrets

A sintonia é no mínimo.. esquisita. Se esvai com muita agilidade e frequência, me deixando angustiada. Muitas palavras difíceis se adequariam à esse contexto, mas a fragilidade da minha cautela quando se trata do assunto prefere as mais simples, porque essas são mais fáceis de lidar.
Então é isso, vai ser bonito vermo-nos crescidos. Não na idade, mas na alma e na essência. Na cabeça, na aceitação, no enxergar um do outro com mais clareza. E eu espero que cresçamos logo. Vai ser bonito vermo-nos juntos também, sem a pretensão de um romance, é claro. Vermo-nos rindo em sincronia de novo, vermo-nos lado a lado, violão e voz, amarelo e marrom.
Acho que na realidade, esquisito mesmo é essa minha sensação de te conhecer há tempos e tão bem que eu poderia desenhar um mapa e escrever um manual de você.

Não sei como terminar. Colocar um fim nessas palavras que descrevem (quase) muito bem a confusão da minha cabeça e a angústia. Talvez quando tudo isso passar eu consiga terminar e colocar um ponto final. No texto e no resto.


Boa viagem pra mim (:

sexta-feira, 10 de julho de 2009

17h

A sintonia entre os dois era perceptível, quase tocável. A sensibilidade dos olhares trocados durante a tarde, os barulhinhos agradáveis que se mesclavam ao som principal e a estranheza que o conforto daquela sintonia remetia só acabou quando o despertador tocou e eles tiveram que ir embora. Não havia nenhuma pretensão para qualquer romance, é importante ressaltar.
E pode ser até que não existesse essa sintonia toda, essa harmonia, toda a sensibilidade que ela achou que estavam ali a tarde toda (nos olhares), mas acreditar nisso trazia a quietude, a sonolência e a calma que faltavam.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

A time to be so small

Desta vez era muito simplesmente ele e só.
Ali, as cores e o calar compreensivo dos pássaros e do vento se encarregavam de acalmá-lo pelos instantes imediatamente anteriores ao desespero já previsto pelas nuvens - estas iam se aglomerando e escurecendo, como se em uma espécie de aceitação e compreensão silenciadas elas se moldassem a combinar com o instantâneo futuro emocional e mental do personagem.
Ele perdeu a conta três vezes de há quantas respirações estava ali, e acabou por levantar-se de supetão e desatar a chorar, num surto repentino de vontade de ir embora correndo dali. As nuvens em sua aceitação e compreensão já descritas, deixaram então que caísse sobre ele toda a chuva de um mundo, para que surgisse a sensação da calma ou muito naturalmente do sono.
Cambaleante, ele voltou a se sentar e adormeceu. A garça passou por ali pé ante pé, com medo de acordá-lo e foi livrar-se da melodia retida em si.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Alinham-se

Ele colocou o violão no chão e olhou pra ela com os mesmos olhos cansados de sempre. 
- O que eu quero dizer é.. Bom,se essa coisa toda de destino existe mesmo.. Se não existem coincidências e tudo está pré-planejado.. Então talvez você..
Ele desviou o olhar por alguns instantes. Deixou seus olhos azuis vagarem pela imensidão do céu.
Há dentro dos teus olhos certos desenhos e tons que criam um céu cansado nos olhos seus. Pequenas nuvenzinhas e brisas dançam lá dentro. Você desvia o olhar pra poder achar as palavras, pra poder ver os pássaros, pra poder ter tempo.. Meus olhos fogem dos teus por medo de cair. Medo de cair em você, no seu céu e na sua imensidão. Na sua incerteza.
- Deixa pra lá.
Ele pegou o violão do chão e recomeçou a música de onde tinha parado. Eu não disse nada, só olhei o céu.

Today, your eyes are my sky. Today, this is my sky.


Foto por: Ana Luiza Sala

domingo, 21 de junho de 2009

Vamos embora pra algum lugar que faça sentido?

sábado, 13 de junho de 2009

I don't like the way things are heading to,not the way this makes me feel.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

I missed the good part


A voz embriagada e sonolenta entrou em mim, pelos meus ouvidos e poros, e me acalmou instantaneamente. Puxei minhas pernas para junto do meu peito, tentando me aquecer enquanto ouvia-o cantar. Nossas respirações transformadas em fumaça pelo frio, fundiam-se uma à outra e à fumaça quente dos nossos cigarros. Ele se aproximou e me envolveu com os braços e nossos arrepios abraçaram-se na mesma tentativa desesperada de esquentar a pele.
Lentamente tudo foi ficando claro pra mim, como se a voz suave dele estivesse arrumando a bagunça na minha cabeça, cantando meus pensamentos de volta pro lugar até nada mais ficar do avesso ou de cabeça pra baixo.
Procurei seus olhos por entre a fumaça e o azul-céu aqueceu minha alma. Sorri de leve, encolhendo-me em seu abraço. Ele sorriu sonolento e fechou os olhos devagar, seu canto tornou-se apenas um cantarolar sussurrado que nos embalava como alguém que põe uma criança pra dormir. Meus pensamentos foram evaporando um a um, até que me restasse apenas ele.
E então adormeci.



It's cold down here.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Up above me


Depois de tantas possibilidades, acabei me cansando. A interminável e torturante espera ajudou bastante e admitir que eu fora vencida pelo cansaço não era nada animador. O jardim esquecido no fundo da casa agora encontrava-se monocromático, as cores mortas faziam tudo desejar cada vez mais pela primavera, que chegará aparentemente mais tarde esse ano. Eu me sentava na poltrona todas as manhãs e a amenidade do silêncio acabava por tranformar o calar-se compreensivo dos pássaros em confissões despejadas pela minha boca. Enfim alguém que sabia ouvir.
Não é que eu tenha me cansado de todos os clichês, eu só não me reconheço mais em meus próprios pensamentos e constantemente me perco mais do que deveria - na minha cabeça e na rua. Não me reconheço mais ao me ver no espelho também, e assim como admitir ter sido vencida pelo cansaço, isso não é nada animador. 'Uma parte irrecuperável da minha identidade se perdeu com (ou em?) toda essa história e eu sei exatamente o quão ruim isso pode ser, obrigada'.
Como eu disse, não é que eu tenha me cansado dos clichês, é só que eles parecem estar em toda parte agora. Tenho achado tudo muito clichê, inclusive eu.. Ou principalmente eu. Incansáveis repetições me perseguem, especialmente de coisas que não quero saber, ouvir, falar e muito menos vivenciar. Os ossos quebrados rasgam minha pele por dentro criando cicatrizes que ficarão lá para sempre, só que ninguém vai vê-las. Nem eu. Mas eu vou sentí-las de vez em quando, afinal de contas são minhas feridas.
O gelo no uísque fazia-se água e o cigarro na janela fazia-se cinzas. 'De repente eu percebi que não é tão simples como eu já pensei que era. Pra me entender, sabe. De repente deu pra ver que não é assim tão fácil, e não é todo mundo que eu acho que me entendia que realmente me entende, eu acho que me entender, às vezes, é uma questão de ponto de vista'.




Adoro quando as luzes ficam assim.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

The truth that they can't see

- You wanna know why? I'll tell you why.. Here we are, all of us, basically alone, surroding each other and looking for that signal of a real conexion. Some of us look in the wrong places, some of us try to stop looking because they think in their minds 'Oh, there's no one out there for me!' but no matter what, we keep looking. And you know why? Because once in a while, once in a very while, two people meet and there's a sparkle. And yes, Nina, he is handsome and she is beautiful
and that's all what they might see at the begining.. But love, love.. This is when two people become one.
- It's physically impossible that two people occupy the same space at the same time, Leopold.
- I know, and that's when you've done it.
- Done what? Broke the laws of Physics?
- Yeah, Nina. A miracle.








I have a sparkle for him here.








Foto por: Ana Luíza Sala


"A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água".


Over there there are broken bones

domingo, 17 de maio de 2009

CaféCreme


Houve uma mudança repentina no clima.
O frio desapareceu e foi quase como se a temperatura tivesse subido tanto que até o ar estava suando.
Suas mãos trêmulas não conseguiram segurar o cigarro, que caiu e projetou faíscas e cinzas num raio de alguns milímetros. Suas pernas enfraquecidas não conseguiram segurá-la de pé, forçando-a recorrer ao apoio de uma cadeira. A respiração dela foi roubado por alguns instantes e tudo o que ela conseguia pensar era nada.
Mais tarde, deitada na cama de manhã enquanto tentava digerir tudo aquilo, chegou à conclusão de que no fim das contas somos todos podres, hipócritas e só pensamos em nós mesmos.
Conclusão meio radical e dramática essa, não?
Não.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Cereal com Milky Way

A Via Láctea tem gosto de framboesa, sabia? Framboesa tóxica. Achei divertidíssimo imaginar alguém lambendo a Via Láctea e constatando que ela tem gosto de framboesa, então, logo depois, o infeliz fica verde e morre. Framboesa tóxica, eu falei. Mas, obviamente, não assim que descobriram o gosto da Milky Way. Foi de um jeito muito mais chato e menos fantástica, embora um milhão de vezes mais possível do que entrar numa nave espacial bacaníssima, ir pro espaço e ao chegar lá, colocar a cabeça pra fora e dar uma lambidela. Não sei como, mas os cientistas apanharam um punhado de.. sei lá, 'ar vialactiano', poeira cósmica, blábláblá e analisaram sua composição química. Descobriram então que lá, entre as milhões de substâncias coloridas com nomes e funções complexas que desconheço, estava ela: a substância mágica que faz a frutinha delícia ter o gosto que tem. 'A VIA LÁCTEA TEM GOSTO DE FRAMBOESA!'. Aposto que os cientistas gritaram e deram pulinhos de alegria. Mas lembra das outras 987654321987654321987654 substâncias com nomes e funções complexas que eu desconheço? Então. Algumas delas são inacreditavelmente terríveis e letais.
Framboesa tóxica, eu falei.


Não é mentira, o Pedro H. que me contou. E o Pedro não mente.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Cadillacs and cigarettes

" Eis um conselho " , ela me disse de repente. " Abandone os contos de fada, eles só machucam você. Entre no rock 'n roll, meu bem. E troque seu coração por um fígado ".
Saímos do carro e sentamos no capô pra ver o pôr-do-sol. As cores do céu refletiam no cadillac branco e minhas pernas nuas se arrepiavam ao som da voz de Dylan que saía pelas janelas e portas abertas.
" Boa ideia.. Mas eu vou trocar por um fígado e por um pulmão", eu suspirei. Rimos baixinho enquanto abríamos as garrafas verdes que trouxemos conosco. A cerveja estava gelada e o cabelo dela ficava inacreditavelmente vermelho com toda aquela iluminação cinematográfica.
O sol se pôs depressa e a noite veio fria.



My movie scene with you, B

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"But the thing is, it’s hard to let go of that fairy tale entirely, because almost everyone has that smallest bit of faith and hope that one day they would open their eyes and it would all come true. At the end of the day, faith is a funny thing. It turns up when you don’t really expect it. It’s like one day you realize that the fairy tale is slightly different than your dream. The castle, well it may not be a castle. And it’s not so important that it’s happily ever after -- just that it’s happy right now. See, once in a while, once in a blue moon, people will surprise you. And once in awhile, people may even take your breath away."

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Bom demais (pro rock 'n roll)

I just need a minute, I just need a breath. Don't you never tell me I'm not loving you best.
You're making not easy to slow me down.
Take me with you I start to miss you.



Parecia que tinha passado um furacão ali. O outro pé do tênis ela achou embaixo da cama e o sutiã pendurado no abajour. Vestiu-se depressa e saiu do apartamento sem trancar a porta. Só parou pra comprar cigarro e uma coca, tava insuportavelmente quente e ela se encontrava em um surto de nicotina. Eles chamam de aquecimento global. O calor insuportável, quero dizer.
Parecia que tinha passado um furacão nela. A cabeça e o coração giravam muito mais do que deviam, deixando a Terra pra trás num rastro de poeira estrelar na Via Láctea.
Mas aí ela se lembrou do aviso prévio. Ele avisou, disse que não ia ser assim.
"Você tá nessa porque quer, garota". Ela suspirou e sorriou.
Falling.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

It's April in my heart

Barulho de talher arranhando no prato, raspando. Ela se contorceu desconfortávelmente na cadeira; odiava esse barulho.
Por baixo da mesa, repuxou diversas vezes a meia-calça que incomodava tentando ajeitá-la. Bateu ritmadamente as unhas na mesa, estalou os dedos, brincou com o gelo do copo.
Haviam muitas pessoas à mesa de jantar, mas nenhuma delas era com quem ela queria realmente estar. E o tempo se arrastava pela toalha de mesa impecável.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu tava sentada no meio-fio quando você estacionou na minha frente e jogou o farol na minha cara. Quando você saiu do carro, parecia aquelas cenas de filmes de ficção muito ruins, com pessoas vestidas de aliens verdes, mas eu sabia que era você então nem me assustei.
Não sabia o que você tava fazendo ali e me surpreendi quando você sentou do meu lado, sempre achei que alguma coisa em mim te incomodasse profundamente, sempre achei que você não gostava de mim, que você achava que eu não era boa o bastante pra andar com você e seus amigos. Mas você se sentou ali comigo e puxou conversa.
Tudo o que eu conseguia pensar era em como você era lindo.




Tenho que parar de sentir ciúmes de amigos e de pessoas que não são meus amigos.
Tenho que parar de me importar tanto.
E de reparar tanto.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Little joy

Deu uma lambida no sorvete e depois fez uma careta.
- Eca, é de que?
- Abacaxi.
- Credo, sái daqui. Velho, quem toma sorvete de abacaxi?
- Eu, ué.
Deram as mãos e saíram da sorveteria. Estava chovendo, mas eles já estavam molhados mesmo e, além do mais, tomar banho de chuva é romântico.
Dava pra ver pelo jeito que seguravam a mão um do outro, eles não iam se deixar ir embora. Esses dois eram pra sempre.

Transbordando

Afinal de contas, o que é essa merda de amor? As pessoas falam de amor o tempo todo. Elas sabem o que isso significa? O amor? Será que eu sei o que significa?

Talvez alguém que, apesar da minha falta de memória, me faça lembrar de todos os ontens. E não me deixe esquecer de fazer meus deveres de casa e de lavar a louça.

E de repente o amor se misturou à hemoglobina e voltou a pessear pelo meu corpo como um velho conhecido. Meu coração começou a se regenerar e minhas mãos - como todas as outras partes - começaram a transbordar em palavras. Mas você não entendeu. Me perguntou o motivo das reações e por que eu me permiti (?) - logo eu que sei controlar (!) Eu não permiti mas também não me preocupei em conter. Não existe motivo, não existe razão. Me dediquei e cuidei. Com o amor que eu encontrei - não sei onde, como, nem quando - fiz amor brotar em mim. Mas foi assim... sem querer, sem saber...

"Conheci uma menina que fazia todo mundo se prender a ela mas não se prendia a ninguém.
Viveu muito pouco, e matou todos seus prisioneiros ao longo da vida.
Morreu sozinha, presa a si mesma."
Esse definitivamente não é o meu problema. Acho que na realidade, eu me prendo aos outros e me esqueço de mim. De me prender a mim mesma. De pôr os pés nos chão.
Eu não devia mastigá-los assim, não devia guardá-los com todo esse cuidado. A melhor coisa a se fazer com amores (nem tão amores assim) cansados, é deixá-los em paz pra que você finalmente se encontre.

Você sempre foi dessa cor?

Não tô mais fazendo sentido, mas tem um tempo já.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Não sei o que dizer. O que escrever. O que pensar.
Eu diria que as coisas estão muito confusas na minha cabeça, mas não é bem assim. Não tem o que confundir. Não tem o que ter. Não tem nada. O que me incomoda é esse vazio esquisito.
Já não escrevo mais tão bem quanto antes, se é que escrevo alguma coisa. As palavras não me veem mais tão facilmente, e se vem eu as esqueço muito rápido.
Acordo cansada, não quero estudar mas estudo, não quero aulas e preciso de óculos. Minhas vontades mudaram. Tenho muitos vapores de bilhares de sentimentos e pensamentos vazando pelos ouvidos, coisas que mal cabem dentro de mim. Estou a ponto de explodir.

terça-feira, 31 de março de 2009


Unhas cor-de-rosa passeiam pelos lençóis da cama. Às vezes os reflexos de dentro saem pela garganta e tudo fica meio translúcido a meia-luz esverdeada que vem da janela. São escritas aqui palavras sem nenhuma importância externa, mas que organiza os vapores de sentimentos e idéias por dentro. Algumas garrafas ao pé da cama, cheias de bitucas de cigarros. Todos dormem, mas num canto meio afastado um garoto e uma garota, amigos, dedilham de leve seus violões e tiram músicas no teclado, bem baixinho. No parque, debaixo da chuva gostosa que caiu no domingo, um casal anda de mãos dadas rindo, achei que fossem conhecidos meus, mas não eram e fiquei desapontada com isso. Afetividade demais me dá vontade de vomitar. A afetividade dos outros me dá vontade de vomitar, mas isso é só agora. Tá me faltando razão, mas nada é inerte em mim. As cordas do violão estavam todas desafinadas, o relógio tinha parado e isso me aborreceu. Ele esqueceu de quem eram alguns sorrisos, culpa da idade. Morreu de medo de ficar sozinho. Morreu de verdade. Tropeçou nas garrafas ao pé da cama quando acordou e ficou aflita porque o barulho podia ter acordado os pais. Ainda tem bolo, você quer?
"Agora que eu virei tudo de cabeça pra baixo vou ter que aprender a andar no teto".

domingo, 29 de março de 2009

The point's that ain't no romance around here

A vontade de vomitar vem do coração apertado, é consequência.
"Às vezes é difícil, é difícil entender o porque das coisas serem assim, o porque das coisas serem assim com você. Às vezes você não fala pra ninguém, nem para quem você mais confia, porque na verdade, as coisas não são assim, elas estão assim."
A pior parte é admitir. Não necessariamente pro resto do mundo, admitir pra mim mesma. Essa é também a parte mais importante.
Sumiram as flores no meu caminho.


Olhos castanhos. Um metro e oitenta e.. cinco. Acho que eram verdes ou dourados. Os olhos. Sei lá.
Ele não olhou pra mim, não veio puxar assunto e não foi atraído magneticamente e misteriosamente na minha direção como acontece nos filmes. Nada. Não sei se ele era bonito porque isso é muito relativo; beleza, alegria e até perfeição, mas ele chamou a minha atenção e meu instinto de stalker me fez seguí-lo discretamente pela Zara feito uma pateta. Incrível o que o tal instinto stalker faz, ham? Até a audição fica mais aguçada. Ouvi quando a mãe dele (mãe, será?) perguntou o que ele achava do verde daquele suéter no manequim. "O que você acha desse verde, Artur?". Hihi. Artur me lembrava um cara de uma vez. De uma vez nada, ele tá sempre por aí, around.. De qualquer forma, o fato é que Artur me lembrava o tal do cara. Os olhos tinham o mesmo tom castanho-verde-dourado e o cabelo era bem parecido também. O queixo, os ombros largos e o jeito de andar. Quis beijá-lo e tê-lo pra mim. O Artur. Mas acho que na verdade era o outro cara que eu queria.


Olha a vontade de vomitar chegando.
Licença, vou ao banheiro.

terça-feira, 24 de março de 2009

you know the movie song

me pergunto como duas pessoas arrastam sua relação à pontos tão extremos?
falar eu te amo e daí a pouco não falar mais. mais nada.
pior ainda: sentir 'eu te amo' e depois não sentir mais nada.
então a solidão que vem e que não cura com aspirina. nem com nada que a medicina possa oferecer.
é a alma encolhida num cantinho do coração, sem vontade de explodir e de sair.
até vir alguém pra tomar a sua dor e sumir com ela de você. a "alma refletida no seu céu da boca, como sombra da aurora boreal".
nascemos inteiros, ninguém tem que ter a responsabilidade de nos completar mas existem sim aqueles que nos melhoram. e nos aquietam a alma e o coração.
i keep waiting but you never come.
all there's left to do is run.



a vontade de correr tá grande aqui. mas a vontade de você tá maior.
a necessidade de saber quem é você e cadê você tá doendo já.
cansei de brincar, aparece. por favor?

domingo, 22 de março de 2009

Domingo de manhã

Gael acordou por conta do sol em seu rosto; a persiana da janela estava aberta, obviamente. O relógio digital na parede mostrava 09:30 da manhã e pelas suas contas era um domingo. A cabeça dele latejava e seu estômago se remexia desconfortavelmente nos seus pés. Tentou se lembrar da noite anterior, mas tudo o que conseguiu foram alguns flashes bagunçados, cheios de cor, risadas e alguns diálogos sem sentido. Se levantou e cambaleou pelo quarto até o banheiro, catou o ENGOV no armarinho e engoliu três comprimidos de uma vez. Deu uma olhada no espelho e suspirou para a imagem descabelada e com olheiras enormes que olhava de volta pra ele. Que se dane, é domingo. Cambeleou pelo corredor até as escadas e parou com a mão no corrimão quando chegou na sala. Ah, caralho. Helena dormia no sofá. O cabelo negro espalhado no estofado branco, os braços embaixo do travesseiro, as costas se movimentando ligeiramente pela respiração e o cobertor no chão. Se deu conta da sua falta de camisa quando notou a skinny vermelha de Helena no chão ao lado do sofá. A calcinha dela era azul, daquelas mais larguinhas e que realçava o tamanho da bunda dela, ele não pode deixar de reparar. Gael não pode resistir, queria fazer isso desde do momento em que a viu, na festa da noite anterior. Se sentou no sofá e acariciou de leve a perna dela, do tornozelo até a coxa, e deixou um sorriso inclinado escapulir quando viu a pele se arrepiar.
Helena abriu os olhos devagar e sorriu ao ver Gael. Se sentou e de costas pra ele perguntou que horas eram. Não interessa, é domingo. Não é melhor eu ir pra casa? Não. Gael afastou o cabelo dela do pescoço e a beijou, acariciou suas costas e arrepiou sua nuca. Ele subiu as escadas com Helena no colo, as pernas dela entrelaçadas em sua cintura. Fechou a porta do quarto, a deitou no tapete e tirou o resto de sua roupa.
O domingo pra eles passou rápido demais e na segunda-feira Helena acordou no mesmo sofá, só que com Gael ao seu lado.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Her tired elegance

Ela sempre está lá quando eu me espremo pra dentro do metrô por entre os que saem apressados, sentada no mesmo assento amarelo reservado para idosos e deficientes, os óculos de grau meio tortos no nariz e normalmente entretida com alguma dessas revistas metidas a cults.Sento-me sempre em frente à ela e a olho com o canto do olho quando acho que ela não está olhando, mas às vezes ela me vê e me lança olhares que não se definir por cima da revista que (finge) ler.Ela sempre parece muito cansada e tem olhos tristes, de vez em quando fecha a revista, os olhos e fica sentindo o sacolejar do metrô sacolejando seu corpo e eu acho que ela vai desmanchar ou sair flutuando dali.Tenho vontade de me sentar ao lado dela e conversar, fazer seus olhos sorrirem e seu sorriso descançar.
The sound of water makes her grin (grimly).

quinta-feira, 12 de março de 2009

Fuel for life: L-O-V-E

"I was born with an enormous need for affection, and a terrible need to give it."



A gente tá sempre escrevendo sobre amor e todas essas coisas lindas, idealizando os 'caras potencialmente perfeitos' e todas as sensações que os ditos cujos nos proporcionariam e sonhando com tudo isso, mas aqui do lado de fora, do lado real, longe das palavras minuciosamente escolhidas e das frases perfeitamente estruturadas, tudo é uma bagunça. Sei que a realidade é pra quem não tem imaginação, mas de certas coisas a gente não consegue fugir.
I've been feeling quite lonely these days. In fact, I've been feeling lonely for over a month now and this 'blue times' make me wonder if is really someone out there for each one of us. 'Cause you know.. It's quite a massive crowd on the Earth. E se o número de pessoas vivendo nesse planeta não for par?
Eu acredito em alma gêmea, mas acredito também nos desencontros e sei que existem pessoas que simplesmente não agradam. Essa coisa toda de soul mate não serve pra todo mundo, certas pessoas nasceram para serem sozinhas.
Tenho medo de ser uma delas.

"How do you feel by the end of the day,
Are you sad because you're on your own?"
And sometimes, a little help from our friends isn't enough.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Hush, my darling

Can't you see that it's just raining? Ain't no need to go outside. Close your eyes, stay right beside me and let me tuck you in just like a child. Then when you wake up I'll make us banana pancakes and we'll pretend that it's weekend now 'cause everything we need is enough and it's just so easy when the whole world fits inside of your arms. You make me smile, baby just take your time holding me tight. This is our sunny sunday now so we'll just lay in the grass, make soap bubbles to the sun and have ice cream at the garden. The sun will fade away, so we'll look at the stars and we're together. It's always better when we're together. We are better together. All dreams are made out of real things, like shoebox of photographs with sepia-toned love and morning's first light shining in your hair and warming me up.




The more of this or less of this or is there any difference? Am I just holding onto to things that I don't have anymore?

sábado, 28 de fevereiro de 2009

E se você se for..

É só um monte de bolhas de sabão por aí, que vão estourar eventualmente.
Talvez a gente devesse amar mais, mesmo que isso signifique sofrer mais. Porque tudo bem amar e tudo bem sofrer também. Nesse nossa existência de bolha de sabão, o que realmente falta é mais amor. Creio que se há mais amor, there'll be a chance for peace to come over and make her miracle. Um papo meio hippie, meio hype, clichezão, eu sei, mas o que seria do amor se não fossem os clichês?
'Eu te amo' não é 'bom dia', mas também não é uma frase proibida. Solidão é a pior coisa que existe, ter amor pra dar mas guardar isso pra si, numa gaveta ou sei lá. É quase como ser.. Loveless, só que cheio de amor guardado embaixo da cama e você sofre por causa disso. De que adianta o amor lá embaixo da cama, dentro da gaveta ou no freezer pra não estragar? Não vai fazer ninguém sorrir, nem causar falta de ar ou joelhos bambos e mãos suando frio. Não vai colorir os dias de ninguém nem criar canções e musicar pensamentos, poesiar sonhos. Ninguém comete loucuras por um amor que tá escondido e guardado.
E confiança, cara. Falta também confiança. Por mais que alguns digam que esse é o maior erro do ser humano: "Esperar algo. Esperar que nada vai acontecer, esperar boas intenções, esperar reciprocidade". Mesmo que (talvez) seja um erro, é importante. Confiar, esperar alguma coisa, amar, ter devaneios e comer chocolate. Tudo essencial. E quanto a parte de ser, não errado, mas um erro.. Essa é a essência do ser humano, não é? Errar. Aprender com os erros. Tá na nossa natureza, sei lá. Acho que somos conjuntos de erros ambulantes que amam pouco, confiam pouco, esperam demais, comem muito chocolate e não se dão as mãos. Não apenas no sentido literal da coisa.
Acho a coisa toda uma bola de neve.
Vou me perder nos meus pensamentos, ideologias que não consigo explicar e idéias e teorias que fazem sentido pra mim e não pra vocês, se não parar de escrever agora.
Parei, então.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Fumaçando


Ela suspirou cansada, como quem tenta converncer uma criança teimosa, e se sentou ao meu lado. O cabelo dela brilhava na luz fraca do poste e os olhos opacos saltavam de estrela em estrela.
Ela murmurou alguma coisa, acendeu um cigarro e depois de fumá-lo em silêncios, me deu um beijo gelado e foi embora.

Final alternativo por Anaïs:
Corri atrás dela e a segurei pelo braço, demos uma pirueta e dançamos até o sol se pôr. Ela me cobrou um café que eu estava devendo e embarcamos naquele trem.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

So today is Valentine's


Todas as paredes vibravam com o som alto e os jovens dançavam compulsivamente na cozinha apertada. Apetrechos e ingredientes para fazer suhi espalhavam-se por todo o cômodo e por todos eles, nos garotos e nas garotas, arroz nos cabelos e nas roupas, algas pelo chão, morango nos narizes e nas bocas, cigarros nos dedos e copos cheios de misturas improvisadas para embebedá-los nas mãos. Nada de pais na casa, só os amigos, a bagunça e a música.
Ele chegou devagar, suave, pediu um trago do cigarro dela e depois puxou-a pela mão até a geladeira. Ela não entendeu, mas não queria muito entender também. Entender é se preocupar, quase sempre.
- Meu nome é Diego.
- Oi. Você é o irmão da Helena, né?
Ele sorriu torto, daí abriu a geladeira e encheu a mão de morangos.
- Você quer um?
Ela acenou com a cabeça e pegou um morango da mão de Diego, enfiando-o na boca logo depois. Um fiozinho de suco vermelho escorreu pelo canto de sua boca e ela limpou rindo. Os olhos verdes dele refletiam nos dela, escuros e brilhantes.
- Teu nome é..
- Sofia.
- Isso, isso.. Ai, caralho, desculpa por não lembrar teu nome.
- Tudo bem, eu não lembrava o teu também.
Eles riram. Ela tragou o cigarro e ele enfiou dois morangos na boca. Diego fechou a geladeira com o pé e deu alguns passos na direção de Sofia, ficando bem perto dela. Encostou a bochecha na dela e sussurrou alguma coisa em seu ouvido. Sofia sentiu a nuca arrepiar e a ponta do nariz formigar, então fez que não com a cabeça bem lentamente. Deu pra ver que Diego sorriu. Ele segurou o queixo dela nas mãos e a beijou.
Em off - Você se importa se eu te beijar?



Ontem foi sexta-feira 13 e hoje é Valentine's Day. How ironic.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Fairy tale

Helena entrou no cômodo rindo, olhando pra trás. Alguém tinha dito alguma coisa engraçada na sala enquanto ela ia pra cozinha. Gael parou com a mão na porta da geladeira e olhou pra Helena; o cabelo preso num nó, um suéter cinza com motivo escocês em vermelho, um par de jeans puído e all stars brancos velhos e encardidos. Linda.
Helena parou de rir quando o viu; descalço, uma camiseta preta com uma estampa humorísticamente ácida, o cabelo bagunçado no rosto e os olhos verdes que a hipnotizavam. Lindo. Foi até a geladeira e com um sorriso a abriu, passando na frente de Gael e tocando sua mão de leve.
- Acabou a Heineken? - ela perguntou por cima do ombro, num tom de desapontamento.
- Se não mais tiver aí dentro, então sim. Bebemos todas.
- Hmmm.. Droga. E agora? - Helena se virou -a geladeira ainda aberta atrás de si- , ficando bem perto de Gael. Eles se olharam por alguns minutos, dentro dos olhos.
- Se você sair de frente da geladeira, talvez eu possa dar uma olhada e ver se acho alguma coisa interessante pra gente tomar. - Gael piscou e empurrou de leve Helena pro lado, que riu e depois se sentou na bancada. Ele remexeu um pouco a geladeira até achar uma garrafa de vodka pela metade, depois a largou ao lado de Helena e fechou a geladeira com a perna.
- Gael?
- Que é? - ele cercou-a com os braços, um de cada lado da garota, apoiado onde ela se sentava, os olhos fixos nos olhos dela. Helena acariciou a bochecha dele e se inclinou até seus narizes se tocarem.
- A gente se conheceu hoje e eu tô ficando com a Clara. - o garoto murmurou. Como se ele ligasse.!
- Aham.
E Helena o puxou pra si, segurando com força o cabelo na nuca dele. E Gael a puxou pra si, segurando forte em sua cintura e a beijou.


The problem with fairy tales is that they set a girl up for disappointment. In real life the prince goes off with the wrong princess.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

J.M


Deitado no banco ele só conseguia ver -por trás das lentes escuras do Wayfarer, vale ressaltar- o céu azul sem nuvens, os galhos da árvore sem folhas, a fumaça do seu cigarro subindo e o passarinho de peito amarelo e cauda branca que analisava o ambiente a sua volta, parecendo tão entediado quanto nosso personagem em questão, mas conseguia sentir de leve o as cordas do seu violão na ponta dos dedos. Merecia até umas fotos, tudo aquilo ali. O passarinho amarelo lá cima, contrastando com o céu azul e a árvore cor de árvore-sem-folha; ele deitado naquele banco branco-sujo, o cigarro fumaçando na mão dele, o Wayfarer no rosto, o violão no chão fazendo companhia e aquele ar de rebelde entediado, achando tudo muito chato, que o acompanhava toda manhã.
Ela até bateu essa foto. Ele deitado no banco com todo aquele cenário e os adereços e cena, quero dizer, mas ele nunca chegaria a ver a tal foto. Nos sonhos dela sim, mas aqui em baixo, no mundo real, não.

sábado, 31 de janeiro de 2009

A.


Eu te amo,
com todas as letras. ♥

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Helena se sentou de pernas cruzadas em cima da mesa e abriu a blusa.
- Helena, você disse?
- É.
- De Tróia?
- Se você quiser, claro. Eu não acho ruim, ela era a mulher mais bonita da Grécia.
Sem nexo, fala. Ou sexo. Vou aonde você flor.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Tão fácil de se envolver

Voltei-me pra ele e sorri. Era uma reação engraçada sorrir depois do que ele tinha me dito, mas expressava exatamente o que sentia. Não que eu estivesse feliz, claro que não, é sempre triste quando isso acontece, mas pelo menos eu não estava mais agoniada. Foi como se eu chegasse em casa depois de um longo dia com sapatos apertados demais pra mim e finalmente os descalçasse, dava até pra ter suspirado. Depois girei nos calcanhares e fui embora. Talvez tenha sido rude, mas tenho certeza que ele não se incomodou.
No caminho de volta pra casa, apanhei um girassol e cantei Tchubaruba. Essa música sempre me traz paz.



It's funny how she sinks in me. Sometimes slowly and sometimes not, but always in the right time. Mallu.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Smudgy

Apertei o botão do elevador e fiquei olhando a luzinha em cima da porta de metal descer os andares um por um até parar. Daí o elevador chegou e meu telefone tocou, tudo ao mesmo tempo. Atendi, entrei no elevador e você falou pr'eu voltar que a gente ainda tinha muito que conversar. Não me lembro o que eu respondi, mas desliguei o telefone logo depois e peguei meu espelhinho de bolsa pra consertar minha maquiagem e arrumar meu cabelo. As pessoas não podem nunca te ver com rímel borrado de lágrimas, elas não conseguem lidar com isso e se sentem desconfortáveis. Sem contar que não é nada atraente.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

give it a chance

quando a gente conhece pessoas novas, não é você logo de cara. assim, logo de cara, você tenta decodificar pelo menos o básico daquela nova incógnita animada que acabou de conhecer. pra poder rolar aquela socialização básica, aquele get-to-know inicial, sabe como é. e aí, logo de cara, você não é você, não age como você mesmo. eu pelo menos não. acho que deve ser algum tipo de timidez reprimida, não sei.
toda vez que você conhece alguém pela primeira vez (sim, pela primeira vez porque ao longo dos anos, conhecemos a mesma pessoa de novo e de novo de novo e nos conhecemos também, incontáveis vezes. isso tudo porque as pessoas mudam, o tempo todo. tudo muda o tempo todo), sente alguma coisa. é a primeira coisa que aquela pessoa faz você sentir, uma sensação que varia de pessoa pra pessoa (ou não) e que provavelmente vai ser responsável pela relação das tais pessoas no futuro (se é que vai haver algum tipo de interação). isso e os interesses e as ideologias em comum, obviamente. e não adianta dizer que não existe tal sensação, ela está lá quando vocês se conhecem, é só prestar atenção.
pode ser que você conheça alguém e a sensação que esse encontrar te proporcionou foi agradável ao ponto de vocês se sentarem juntos numa mesa de bar, ou seja lá onde se encontraram, pra conversarem e se conhecerem melhor.
pode ser que você conheça alguém e a sensação que você sentiu foi diferente da que ela sentiu e isso comprometa qualquer chance de vocês se tornarem qualquer coisa um do outro. é triste, mas acontece.
pode ser que você conheça alguém e a sensação tenha sido boa, mas a pessoa não é do tipo que se entrega assim tão facilmente (diferentemente de mim, cabe acrescentar) e leve algum tempo para que vocês sentem pra conversar e se conhecer melhor. mas só porque isso não aconteceu logo de cara, não quer dizer que não vá acontecer nunca e, definitivamente, não quer dizer que vocês não vão descobrir ideologias e interesses em comum e não vão construir uma relação sólida e concreta (ou algo volátil e que se move com o vento, vai saber). existem pessoas fechadas e que são mais complexas do que as outras, mas não é impossível se aproximar delas. só é preciso paciência e interesse para entendê-las.
e eu digo isso mais à mim mesma do que à vocês.



sem maiúsculas. cansei delas. por hora. ou não.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Look how they shine for you

Mordeu a maçã,mastigou um pouco e depois fez uma careta.
- O que foi? - Helena perguntou distraída, analisando seu pacote de biscoitos recheados cheios de gorgura trans.
- Um verme. - Gael respondeu, a boca cheia de maçã e verme, tentando reposicionar o dito cujo recém assassinado, de preferência em algum lugar onde não houvesse contato com sua língua.
- Eu disse que essas merdas de comidas orgânicas vão acabar matando você.. - Helena mordiscou a ponta de um biscoito de chocolate e depois ofereceu o pacote ao garoto.
Gael analisou um pouco sua fruta e em seguida engoliu toda a gororoba de maçã mastigada e verme morto dentro de sua boca. Depois encarou Helena por um tempo e sorriu.
- Verme é proteína, né?
Helena revirou os olhos, achando graça e comeu o resto biscoito meio mordiscado.

- Amor, acabou o pão e o café. - O tom usado foi sugestivo, ela queria que ele fosse comprar pão e pó de café, óbvio, mas ele fingiu que não reparou.
- Tudo bem, ninguém vai morrer por causa disso.
Ela riu. Ela sempre ria.
- Você pode ir comprar, baby? - Ela deu-lhe um beijo estalado e sorriu. Claro que ele podia ir comprar pão e café. O que ele não fazia por aquele sorriso?
- Claro. - Beijou o nariz da garota e depois olhou para si mesmo: uma camiseta azul clara encardida, havaianas velhas e uma bermuda preta. Dane-se, vou assim mesmo.
Levantou-se e a cadeira de metal rangiu, apanhou as chaves e duas notas de cinco em cima da mesa e parou na porta do banheiro, pra avisar à ela que estava indo. Ela escovava os dentes sentada na privada, lendo o livro que estava lendo naquela semana.
- Tô indo, gata, você quer alguma coisa? - A garota ponderou um pouco, daí se levantou e cuspiu a espuma da boca e respondeu que sim.
- Quero. Traz a maior quantidade de Bubaloos que o troco de moeda conseguir comprar. - E sorriu. Ela sempre sorria.
A atendente suada suspirou pesadamente quando ele se aproximou. A padaria estava vazia, era feriado e estava fazendo no mínimo 1300 graus lá fora, ninguém vai a padaria nessas condições. Ela passou o saco de papel cheio de pão, o pote de pó de café e a Coca-Cola pelo negócio que lê códigos de barras, digitou alguns números no teclado do computador e perguntou numa voz preguiçosa e rachada se ele queria mais alguma coisa.
- Não.. Ou melhor, quero sim. Me vê um maço de Camel Nº 9, aquele preto com a bordinha vermelha bem ali.
De novo o trocinho que lê códigos de barra, seguido dos números no tecladinho.
- 8 e 36.
Ele pagou, pegou as sacolas de plástico com toda a sua mercadoria, apanhou o troco e foi embora.
Ah, porra. Esqueci os Bubaloos dela. Voltou e comprou os chicletes. Quatro, dois rosas e dois azuis. O que ele não fazia por aquele sorriso?
Quando chegou em casa, largou tudo em cima da mesa e dançou com ela pela sala, fazendo-a rir.