terça-feira, 29 de setembro de 2009

Colorblind

Há mais ou menos um ano, eu decidi que cabelos castanhos são chatos. Então, por me julgar muito descolada e estilosa, resolvi que devia ter pelo menos uma pequena porcentagem do meu cabelo sedoso e castanho-sem-graça tingido de alguma cor extraordinária. E assim o fiz. Laranja foi a cor escolhida. Sim, sim, eu tenho uma mecha laranjada marotíssima no cabelo e não é por cima, parecendo que jogaram Gatorade em mim, é por baixo; misterioso, inesperado e sexy.

Até hoje. Há um mês eu resolvi que laranja não era mais cool (apesar das madeixas flamejantes da H. Williams) e decidi que azul seria a nova cor do momento. Azul é lindo, significa liberdade, é a cor do céu, etc e tal. Ótima opção, óbvio. Óbvio nada. Péssima opção.
O que se sucedeu:
Passei bem umas duas semanas enrolando pra mudar, me despedindo do laranja blá blá blá whiskas sachê. Enfim, depois de todo o melodrama, comprei os aparatos necessários para a operação: descolorante em pó - confere; água oxigenada número 40 - confere; papel alumínio - confere; luvas de dentista - confere; anilina azul - confere. Tudo certinho, bonitinho, esperando pra ativarem seus poderes X-men no meu capilar. Passei a tarde toda dedicada à essa aventura, descolorindo, lavando, escovando.. Mas depois de três descolorações, quem foi que disse que o laranja tinha ido embora por completo? Meu cabelo encontrava-se num estado indefinido entre loiro-Monroe e amarelo-batata-frita. Péssimo. Não dava pra descolorir uma quarta vez porque senão meus fios iriam se desfazer. Sério. Eles estão tão fininhos que dá até nervoso. No fim das contas, eu desisti de tentar homogeneizar a falta de cor e pintei logo de azul. Azul, né? No potinho, só. No cabelo ficou.. verde azul. Feio. Estou frustrada e se semana que vem - quando eu passar a anilina de novo - continuar verd'azul, eu vou pintar de castanho e aceitar a cor do meu cabelo.

Que depressão. Acho que raspar a cabeça é a solução.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

In the middle of summer


Ela, atrasada, usava uma camiseta muitos números maior - bonita, mas velha - e um short jeans surrado, curtíssimo e largo. O cabelo preso de qualquer jeito, fora do lugar, até dava a impressão de ter sido arrumado para parecer descuidado. Ela entrou, todo mundo olhou. Ficou sorrindo junto à porta. Às 2h da tarde de um domingo enfadonho, com 37 graus insuportáveis no ar, quem é que sorria assim? Ela acendou um cigarro e todos pensaram.. Bom, você sabe como são as pessoas.. Cada um pensou uma coisa..
E ela sorrindo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Formas geométricas

Essa noite eu perdi o sono. Quis te ligar, mas eram 3h da manhã e você nunca dorme com o celular ligado mesmo. Engraçado como as minhas epifanias são mais verdadeiras e poéticas de madrugada, já notou?.. Os meus pensamentos fluem com mais facilidade e eu não tenho que ficar escondendo coisas e mentindo pra mim mesma e para os outros quando são 3h da manhã de quarta-feira.
Acho que nunca te disse isso (e se já disse, nunca foi tão sinceramente), mas eu gosto quando você sorri. E admiro o modo como é invencível a fragilidade dos momentos em que a gente faz confissões silenciosas, normalmente à meia-luz de uma casa adormecida ou no meio de uma multidão enfurecida nas manhãs entediantes e cotidianas. Acho incrível quando as pessoas de fora enxergam a nossa musicalidade, a sintonia, o jeito como vamos sempre seguindo a mesma direção até inconscientemente. Confesso que não me incomoda quando os ingredientes que a gente escolhe pra ir no molho do macarrão são os mesmos ou quando você não me deixa mudar de assunto até que tenha relatado detalhadamente como foi o seu dia (inclusive os momentos em que eu estava presente).
Você é minha paz, pequena.

Ich liebe Sie jeden Tag.


(Não,eu não te perdoo por todas as vezes que você disse que ia me ligar e não ligou. Aliás, você não me ligou ainda)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Minha música

Era perfeito. A tarde se estendia preguiçosa pelo gramado verde do quintal, o silêncio inspirador do domingo, o violão favorito corretamente afinado e a garrafa já meio aberta querendo ser esvaziada. E a tristeza, é claro. A tristeza inexplicável, poesia, que serviria de alimento para a melodia. Era indispensável que houvesse essa tristeza, espeficamente essa, a qual ele se recusava a relevar e guardava-a apenas para si, para usar especialmente agora. O momento perfeito.
Obviamente, sentou-se na grama com o violão no colo, a garrafa ao lado e a tristeza no peito. Tirou do bolso um pedaço de papel amassado onde muitos acordes rasurados e bagunçados foram rabiscados muitas vezes. Foram muitas tentativas, falhas, para escolher os acordes perfeitos. Tomou um gole, arrancou alguns punhados de grama e finalmente tocou. Aqueles, a primeira escolha, que vieram num lampejo de inspiração aos 16 anos e que pareceram tão certos no momento mas tão errôneos segundos depois, seriam afinal os acordes que deveriam ser e estar.
Ele compôs. As notas diziam tudo. O sol se pôs, a garrafa, o agudo.


Escreve logo, não deixa passar os anos. Não esquece de colocar letra. Sem tristeza, vai.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

6 motivos pra não gostar de mim

1- Eu minto muito. Tipo, muito mesmo. O tempo todo. E sou boa nisso, de verdade. Manipulo as pessoas e faço com que elas acreditem em mim, quase nunca sou pega.

2- Depois que eu tomo banho, os azulejos do box do banheiro ficam cheios dos fios de cabelo que saem enquanto eu lavo a cabeça. Eu grudo todos eles na parede mesmo, não estou nem aí. Não acho nojento e se incomodar o próximo a tomar banho, ele que tire.

3- Sou falsa. Se eu não gosto de você, você nunca vai saber a não ser que eu faça total questão de que tu tome conhecimento.

4- Acho as pessoas sempre desinteressantes, chatas, burras e desnecessárias. Tirando as que eu gosto, é claro.

5- Eu sou moderna o suficiente pra não ter sentimentos quando eu julgar necessário e pra não sonhar com o altar, apesar de já estar noiva muito obrigada.

6- Minha auto-estima não é alta, mas eu finjo que é a ponto de todos que não me conhecem acharem que eu sou uma filha-da-puta, nojenta, sem coração e estúpida que despreza os outros. E eu sou mesmo.

sábado, 12 de setembro de 2009

Just For The Record - 9 de Janeiro de 2009


Os muitos anos de balé lhe haviam corrigido a postura e lhe propocionado a leveza ao andar, fazendo-a parecer flutuar ao invéz de caminhar e o cigarro aceso pendendo na mão lhe dava um certo ar de uma elegância meio descolada, informal. Passou os dedos finos da mão livre pelo cabelo comprido e negro e suspirou. "Foda-se", pensou, "de quem foi mesmo essa idéia idiota de parar de beber?". Se levantou e flutuou em direção ao pequeno bar que seus pais haviam agregado à sala de estar há alguns anos, "Se eles vão beber, é melhor que façam isso em casa" foi a desculpa deles pra realizarem a pequena construção. Certo. Como se isso convencesse alguém. Apanhou uma garrafa de Jack Daniel's na cristaleira do bar e encheu um copo já com gelo até a metade, depois fechou a garrafa e ficou ali girando e girando os cubos de gelo com os dedos e bebericando o whisky.
"Ué.. você não ia parar de beber, Helena?", Diego perguntou ao entrar na sala bege e vermelha, bem decorada e arejada da família. Ele tinha acabado de voltar da sua corrida noturna diária e estava bem suado, a camiseta azul tinha várias manchas grandes de suor e gotinhas escorriam da sua testa e do seu nariz. Bem sexy. Ele tirou os fones do ouvido e esperou por uma resposta. "É, eu ia, mas mudei de idéia". O mau-humor da garota dançava no ar. "O Gael vai ficar bem chateado contigo, você tinha prometido que ia parar..", Diego sentou-se ao bar com a irmã e se serviu de uma dose do Jack Daniel's em cima da bancada. Ah, certo, a idéia idiota de parar de beber foi do namorado idiota dela. Helena tomou um gole grande do whisky e deu uma longa tragada no seu Camel n°9, oferencendo-o ao irmão logo depois. "Ele pode lidar com isso".




O segundo ato começa com uma repetição.
Abrem as cortinas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

400 years ago, some famous french guy said something about loneliness. He said that we are never alone ('never alone,NO NO!c'mon c'mon,turn a little faster!'), but of course it sounded prettier when he put it out.
'No man is an island'. Not even when you're perfectly sure that you are absolutely alone in yourself, there is always someone there to make you company. We just have to look better.



Fecham as cortinas.
Segundo ato.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Quase nada,muito pouco

Cada centímetro de cada objeto no quarto estava imóvel, e as turbulências aerodinâmicas que entravam pela janela entreaberta não eram capazes de mover nem a menor fibra das persianas. Era como se tudo ali dentro percebesse que apenas a agitação emocional que me resumia fosse o movimento suficiente para aquele momento. Tudo se calou e dentro da dita imobilidade minha crescente confusão era cada vez mais audível, seu silêncio sepulcral e sua gritaria ensurdecedora eram insuportáveis, e a cada expansão da massa atômica em meu peito, todo o resto que não fazia parte do meu narcisismo pertubado, retraísse num universo cada vez mais inerte enquanto o meu universo particular colossalmente enlouquecido, espalhava-se em mim com violência. Era tudo muito irritante: as contradições, os questionamentos, a falta de capacidade, as letras iniciais depois de cada ponto.. O conjunto em si, o eu conjunto meu eme irritava; Fiquei externamente esperando, imóvel, que o vulcão interno explodisse logo e eu pudesse - depois que tudo esfriasse- limpar a bagunça, fazer alguns reparos, trocar o que fosse irreparável e começar a tentar a lidar comigo mesma novamente. Mas não aconteceu. A explosão não veio, a tempestada vulcânica permaneceu totalmente oposta ao imóvel, a quarto prolongou o estado inerte por tempo indeterminado e a massa atômica emocionalmente agitada escapou de mim e inundou todo o universo retraído do exterior. Tudo o que eu consegui foi uma dor nas costas.


Eu sei que prometi esperar você me perdoar e decidir voltar. Prometi esperar muitas coisas e muitas pessoas, mas você sabe que eu nunca fui de ficar assim, só esperando. Tem dez anos que você sabe disso.