quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Precisa-se de alguém que goste de tulipas

amarelas. Alguém que goste de filmes clássicos, principalmente dos em preto e branco com piadas infames e frases que se tornaram quotes inesquecíveis. 'He is looking at you, kid'. Alguém que leia mais do que eu, pra ver se eu engato logo nessa história de ser rato de biblioteca. Alguém que saiba lidar melhor do que a minha melhor amiga com as minhas milhares de personalidades. Precisa-se de alguém que, apesar da minha falta de memória, me faça lembrar de fazer os deveres-de-casa, de lavar a louça, de não me esquecer.. Alguém que escreva poemas sobre as minhas covinhas e brinque com o meu cabelo pela manhã, enquanto eu não acordo. Alguém pra deixar bilhetes na geladeira 'Acabou o pão o e café, mas não entre em pânico. Fui comprar'. Alguém que sobreviva à minha inconstância e ào meu espírito aventureiro de pirata reprimido, alguém pra rir das minhas piadas boas e pra me dizer quando forem ruins. Alguém que saiba quando eu estou fingindo, que divida algodão doce comigo e cozinhe pra mim sempre que eu tiver preguiça. Precisa-se de alguém que verbalize meus sentimentos, que tire fotos bonitas de mim e que seja fotogênico e tímido o bastante para que as fotos que eu tirar dele sejam exepcionalmente magníficas. Alguém que saiba diferenciar amor de sexo e que ria de mim quando eu enfiar morangos nos dedos e os lambuzar de açúcar. Alguém com gosto musical no mínimo aceitável, que não entenda nada de arte nem de física, que goste de peixinhos em aquários grandes e coloridos e que não me acorde nem muito tarde nem muito cedo nos domingos. Alguém que ceda quando meu orgulho não me deixar ceder, alguém que me ensine a ser menos orgulhosa e que aceite que simpatia simplesmente não tem nada a ver comigo. Alguém que goste de pizza de chocolate, de chapéus Panamá e de filmes de ação e porradaria com beijos cinematográficos no fim. Precisa-se de alguém que não se importe. Alguém que não se importe com as minhas mudanças de humor, com a minha visão negativa do amor, com o meu não-me-importo-e-odeio-o-mundo. Alguém que me deixe ser difícil quando eu precisar ser, mas que me coloque na parade quando tiver chegado o limite. Alguém que aprecie a ambiguidade dos momentos irônicos e a suavidade dos dias ensolarados, alguém que beba, que fume e que me deixe chamar o garçom nos restaurantes, mas que insista em pagar a conta. Alguém que me tenha por completo, que me tire do chão e me vista em suas camisas, alguém que goste de banhos de madrugada e de nadar de manhã. Alguém que sinta a instensidade e não se importe com a futilidade que às vezes vem à tona.
Ou alguém que seja totalmente o oposto de mim e que por isso mesmo, me prenda e me convença a não ir embora.


Remember that time you drove all night, just to meet me in the morning?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A cena de uma cena

Deitados na carroceria da caminhonete amarelo-banheira, os peitos abertos para o céu, sentiam a corrente de ar marítimo ziguezaguear acima de suas cabeças deixando um gosto salgado na boca. Ela interrompeu o silêncio das ondas enquanto ele fechava os olhos, simultaneamente.
- Tenho a minha cena, parceiro.
- Finalmente.
O salgado concentrava-se na ponta da língua. Ela lambeu os lábios pra espalhar o gosto antes de continuar.
- É a cena em que você se despede. Tudo muito amarelo.. Tem a caminhonete, aquele meu vestido e lágrimas.
- Amarelas?
- É.
- A grande cena de despedida é amarela?
- É. Um amarelo meio antigo, sabe? Como se fosse um foto velha que ficou guardada muito tempo.
Ele tateou no escuro e se arrastou preguiçosamente pra cima dela, apoiando-se nas mãos para poder olhá-la nos olhos. Ela sabia que ele não ligava muito pra cena da despedida, mas que fingia se importar porque sabia que era importante pra ela.
- Eu vou morrer, Lis.
- Eu também. Todos nós vamos um dia.
- Mas eu vou primeiro.
- Vem cá.
Ela puxou o garoto pelo pescoço e o beijou.

domingo, 18 de outubro de 2009

About death

Sexta-feira eu fui a um enterro - meu bisavô faleceu aos 96 anos - e como seria de se esperar, meus pensamentos mais profundos e filosóficos essa semana são sobre morte. Em primeiro lugar, se você nunca foi a um funeral be glad. São cerimônias desagradáveis que conseguem deixar qualquer um à flor da pele, independente do número de lágrimas que derrame. Eu já fui a cinco e nunca chorei, mas passo pelo menos um semana depois me sentindo desagradavelmente esquisita. A energia dos cemitérios é tão pesada de uma forma tão ruim que todo mundo fica mais sensível, invariavelmente. Eu sempre achei que, apesar do clima triste e obviamente mórbido, cemitérios são um dos lugares mais tranquilos que você pode achar hoje em dia. Observe: além do pranto ocasional - e isso só se você estiver perto das capelas de velório - tudo que dá pra ouvir é o vento, passarinhos, e.. basicamente só. Ironicamente tranquilo e pacífico. Mas ainda assim, os eventos que se dão são sempre desagradável demais pra que cemitérios se tornem o lugar perfeito pra ir praticar tai-chi num domingo de manhã.
Em segundo lugar, acredito que a maioria das religiões lidam com a morte de um jeito errôneo, e eu não vou nem falar da crença (não só) dos católicos de que essa é a nossa única vida, de que depois que morrermos nenhum de nós vai ter outra chance: é Céu ou Inferno e ponto final.
Eu não vejo a morte como algo ruim. Os que morrem ficam livres de ter que sobreviver nessa humanidade filha da puta que tá destruindo o coitado do planeta em que vive. As pessoas vem pra cá para aprender, e falecer significa que você finalmente cumpriu quase tudo o que veio fazer aqui, mas que tá na hora de ir embora e tentar o resto mais tarde. É como ir pra escola mesmo. A gente passa a semana toda estudando, fazendo coisas chatas, se divertindo, dever de casa, whiskas sachê, mas aí vem os fins de semana e a gente descansa, uma folga. Morrer também. Simples assim..
A gente sofre porque somos egoístas. Todos sofrem quando alguém que amam falece, unicamente pelo egoísmo de não ter mais a pessoa por perto. Egoísmo. E, sabe, tudo bem sofrer, temos o direito de sermos egoístas e sofrermos our hearts out, mas isso não mudará os fatos. Quem morre, morreu e fim de papo. Deveríamos ficar felizes por eles e festejar, como os mexicanos fazem.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Last night's

Encarou as escadas. Seria preciso encontrar uma força inexistente em si para conseguir subir aqueles degraus, mas mesmo assim se arrastou escada a cima, apoiando seu corpo pesadamente contra a parede coberta por panfletos e posteres. A festa tinha acabado já há algumas horas, mas ela só conseguiu juntar a coragem suficiente pra ir embora naquele momento. Chegou no topo da escada e empurrou a porta, suspirando a noite e as luzes cansadas da cidade. Sentou-se no meio-fio, os olhos e as mãos borrados na mesma proporção, o cabelo bagunçado, o vestido suado, mais fim de festa impossível. Um carro veio, iluminou-a com os faróis e estacionou bem na sua frente, deixando o farol alto. Ele saiu pela porta do motorista, olhou bem pra ela e foi sentar-se ao seu lado no meio-fio. Primeiro um beijo na bochecha, depois um pedido de desculpas. Ele afagou os cabelos dela, ela olhou-o nos olhos. Segurando o queixo da moça (salty cheeks and runny make up) ele disse:
- Vamos pra casa, Ila. Eu comprei lençóis novos.



-G;

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Can you keep a secret?

Nosso único momento sincero agora é quando nos abraçamos de manhã, sem ninguém pra ver. Eu odeio admitir, mas ainda existe um espaço aqui pra você mesmo que eu não saiba se um dia tu vai voltar a preenchê-lo. Ainda não descobri se é pra estarmos presentes ou ausentes e não sei se algum dia vou saber. Somos um mistério, meu amor. Mas eu ainda penso em você, às vezes, em nós e em como teria sido se eu não tivesse me assustado e fugido. Felizmente, acredito nos desencontros tanto quanto nos encontros, nas horas certas. Você é meu porto seguro, devo confessar. E em momentos de profunda solidão, seu cheiro ainda me enlouquece.

Só uma confissão, inocente e sem nenhuma pretensão. Não quero nada mudando por conta de palavras bobas e não existe nenhum objetivo secreto escondido por trás de tudo isso. Só me deu vontade de escrever, admitir de uma vez por todas que talvez eu tenha sim amado você.

I.

domingo, 4 de outubro de 2009

Blackbird



Só pra você se jogar no chão, sua sacana flamejante das montanhas. Vadiazinha sem caráter.



Te amo.

Assinado: Amor da sua vida.

Cavalo branco

Ontem eu cometi a estupidez de ir a um blind date. Me lembrem de nunca mais fazer isso de novo e, por favor, nunca cometam o mesmo erro. Não importa se o cara é o melhor amigo da sua prima favorita ou se vocês estão tendo conversas agradáveis virtualmente há quase dois meses; em hipótese alguma vá a um encontro com um cara que você nunca viu na vida. E não é só por conta das chances de ele ser um estuprador assassino em série ou, pior ainda, ser secretamente o Cthulhu (consultar Ananda em caso de dúvida), é também por causa da decepção. Por que, well, todas sabemos que expectation has the habbit to set you up for disappointment. E se você vai a um encontro às escuras e tem consciência disso, com certeza expectativas foram cultivadas com carinho no seu little heart porque, oras, vamos logo admitir que todas nós, garotinhas bonitinhas (perdão se soar superficial) dessa sociedade capitalista e que não liga muito pra valores, temos uma lista com no mínimo 3 características que um cara precisa possuir pra que possa existir pelo menos uma semente de esperança pr'um futuro relacionamento: Ser bonito, engraçado e inteligente, pelo menos. Não um Einstein nem o aluno top da sala, mas um QI mínimo é vital. E se você assistiu 'A Verdade Nua e Crua', constatou que as mais obsessivas e fucked up podem ter até 10 pré requisitos necessários em suas listas. O que é bem triste, se a gente parar pra pensar.. A verdade nua e crua é que a gente tem mesmo é que parar de sonhar com o cara que vai ser lindo, inteligente, engraçado, ter bom gosto, ser cavalheiro, não querer só sexo, beijar bem, ser bom de cama, ter um sorriso estonteante, etc whiskas sachê. É o que eu sempre digo pras meninas da 7ª série que estão esperando o garoto perfeito pra poderem perder o BV: príncipes encantados não existem, girls.
Essa é a triste verdade.