quinta-feira, 19 de novembro de 2009

It's later than you think

A água inundou-lhe os olhos, de fora pra dentro, e diluiu bruscamente suas íris de avelã. Ela encarou-o quase com força, deixando seu desespero transparecer mais do que desejava. Ele sabia que a claustrofobia da garota começaria em menos segundos do que ele seria capaz de contar e sabia também que precisava fazer alguma coisa. Ela ia desmoronar.
Tomou-a nas mãos, segurando seu queixo fino com as pontas dos dedos e tentou olhar nos olhos aquarelados dela, as íris dançando na água que entrava num ritmo constante. Era assustador vê-la tão vulnerável, sem sua eterna fortaleza de pedra pra proteger-lhe o coração. Ele teve medo de que se a segurasse um pouqinho mais forte, ela quebraria em suas mãos.
Foi então que ela começou a chorar, desarmando-o tão repentinamente quanto possível e tirando-lhe totalmente a hesitação, ao contrário do que seria esperado. Aproximou-se de seu rosto molhado e amparou uma lágrima com a ponta do nariz. Beijou-lhe os olhos de leve e depois sussurrou com voz de brisa.
- Não chora, meu amor.
..A água parou. E as lágrimas. E as íris se consolidaram devagar, como uma aquarela ao contrário.
Ele teve medo, achou que com o cessar das lágrimas, a fortaleza voltaria e consequetemente, ele seria afastado dela por ela própria. Pelo bem do coração.
Mas não. Ela esfregou os olhos castanhos e depois olhou pra ele. Não foi preciso sorrir, ou abraçar, ou beijar, ou dizer. A íris avelã contou pra ele.



Sometimes, all people need is their fortress to colapse.

domingo, 15 de novembro de 2009

You know how people can get you down with their annoying and exagerated happiness?
Well, I find out today that when this is going on, the problem is you. Not them. You are the one who's not altruistic enough and should see a shrink.
House is the only guy who looks charming and cool for being so selfish.

Seis tons de azul e amarelo

Ocasionalmente um ou dois carros passavam e o ar que ficava pra trás zunia com ferocidade. Dava pra ver o calor subindo em vapor do asfalto impiedoso que castigava nossos pés cansados. Até o ar parecia estar com calor.
Sentei no meio-fio e olhei pra ela com cara de cachorro abandonado, lambendo meus lábios ressecados e limpando o suor da testa com as costas da mão.
- Cansei, garota. Vamos sentar um pouco, quem sabe você não consiga uma carona pra gente.
Ela se sentou e me estendeu a garrafa d'água, depois se deitou na grama meio amarelada, esticando os braços pra trás o máximo que podia.
- Não vou mostrar minhas belas e tonificadas pernas numa high road no meio do nada só porque você tá com preguiça de andar mais míseros 4km.
- Só 4?
- É.
- Achei que faltassem no mínimo 20.
- A gente já andou 20, tolinho.



Olhei pra ela protegendo meus olhos do sol com a mão. Cada pedacinho do seu rosto brilhava por conta do suor, e o tom dourado da sua pele refletia a claridade de uma maneira hipnotizante. Deitei-me ao seu lado, esticando meus braços também até encontrar suas mãos.
O modo com que as nuvens dançavam no céu azul-lápis-de-cor era tão convidativo que meus pés começaram a balançar involuntariamente no ritmo branco lá de cima. O ar estava com gosto de camomila.
Ouvi ela se virando pra mim e me chamando num sussurro confortável.
- Que é?
Ela sorriu e me beijou no nariz.
- Vamos, seu preguiçoso. É melhor a gente começar a andar se quisermos chegar antes de anoitecer. Ou você quer ficar zanzando por aí no escuro, correndo o risco de ser atacado por algum maníaco psicopata que vai arrancar seus dedos com uma maçaneta?
- Não dá pra arrancar os dedos de ninguém com uma maçaneta.
- Nunca subestime um maníaco psicopata, meu amor.
Deixamos a silhueta dos nossos corpos na grama amarela enquanto as nuvens dançavam e os carros passavam, sur une dimanche du camomille.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

You come along because I love your face

Meus pés latejantes e cansados me arrastaram lentamente até o metro quadrado de grama mais próximo e mesmo com o resquício de chuva que se espalhava pelo verde, me larguei ali e fiquei deitada examinando as sensações diluídas nas pálpebras dos meus olhos.
Deu pra sentir quando ela se deitou do meu lado, e mesmo de olhos fechados eu sabia que era ela. Ninguém mexia a grama desse jeito, fazendo esse estardalhaço todo, só pra se deitar. Ela esticou os braços e cutucou a minha cabeça, perguntando se eu estava viva.
- Estou sim, você não me viu chegar até aqui?
Sempre fomos assim, ao contrário. Meu humor negro, minhas respostas ácidas pra todo e qualquer tipo de pergunta e a minha não-demonstração constante de afeto contrastavam fortemente com a doçura natural que ela tinha no olhar e nas bochechas boas de morder. Eu sempre fui a cruel e ela sempre foi a amável. But we always got along really well. Menos quando não nos dávamos bem.
- Sabe.. Acho que eu nunca vou querer voltar pra casa.
- Sua mentirosa.
- Não, é sério. Acho que não vou mesmo.
Ela olhou pra mim e depois se sentou. Encarou o pôr do sol refletido no Palacio Real antes de olhar pra mim de novo.
- Mesmo mesmo?
- Mesmo mesmo. Você vai querer, eventualmente, mas eu não.
- Eu sei.
Esfreguei meus olhos, cansada. A chuva que ficou na grama tinha sido absorvida pela minha roupa onde eu tinha me deitado, e se me levantasse daria pra ver a marca do meu corpo. Mas eu continuei deitada.
- Você pode voltar quando quiser, é óbvio. Quando se cansar. Eu não vou achar ruim, sabe, ficar com o barco todo pra mim!
Rimos em sincronia.
- Eu sei - ela murmurou, suspirando. Então se levantou num salto, olhou pra mim e estendeu a mão - Anda logo, levanta! We've got some tattoos to do, don't we?
Me levantei e nos encaramos.
E ela sorriu.


Bem melequento, mesmo. Imploro por perdão, mas meus dedinhos estavam formigando pra escrever alguma coisa. Pena que não tenha saído lá essas coisas.
E desculpa por colocar você num texto tão ruim, hündin.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mazel Tov

É que eu tenho ouvido muito essa frase, sabe? 'Como é que você tá, Ila?'
Daí vem a resposta 'Eu tô bem, e você?', que é imediatamente acompanhada de um sorriso esplêndido, brilhante e colgate. E que parece que não vem mais surtindo o efeito que deveria: mudar o rumo da conversa de 'questões pessoais' para 'clima e política; superficialmente'.
Mas é que eu odeio ter esse tipo de discussão, dá pra entender? Odeio dizer pras pessoas como eu estou, o que está me afligindo, 'como eu me sinto sobre isso' e todo esse papo que a gente ouve da boca de uma uma psicóloga gordinha com o penteado preso aos anos 70, blábláblá whiskas sachê.
Eu não tenho esse tipo de conversa nem com a minha melhor amiga, quanto mais com todas as outras pessoas que me perguntam constantemente como eu estou. Talvez com a piscóloga gordinha eu teria, quem sabe.
A questão é que eu não vou te dar nada muito mais específico do que um 'ah, ando cansada, de tudo' porque sou orgulhosa, correndo o risco de soar clichê. Sou orgulhosa mesmo, a ponto de preferir ter gastrite e anemia por motivos emocionais do que pegar o telefone, ligar pra alguém e contar dos sofrimentos.
Orgulhosa a ponto de não querer mudar, por orgulho.
E essa característica vai permanecer, assim como a minha gastrite que provavelmente evoluirá para uma úlcera hemorrágica e esse será o meu fim.
Dramático assim.

(e rimando)